OS IDEAIS DA MAÇONARIA
(Palestra proferida em 1928, na cidade de São Paulo, em um antigo templo maçônico da Rua Tabatinguera.)
Toda a religião existente, ou que haja existido, tem tido como um de seus objetivos desenvolver o sentimento de fraternidade entre os homens. Elas, porém, só tem alcançado um êxito parcial neste aspecto de seu trabalho. Basta contemplar o espetáculo dentro do Cristianismo, em que o povo cristão se tem combatido uns aos outros, por séculos, para verificar que existe um fundo de verdade no sarcástico comentário de um antigo pagão: "vede como esses cristãos se amam uns aos outros".
Lado a lado com a religião externa de um povo, sempre existiu uma ou mais sociedades secretas que tem como objetivo desenvolver o sentimento de fraternidade entre os seus membros. Essas sociedades secretas são exclusivistas, isto é, admitem apenas aqueles selecionados para tal fim; possuem sinais secretos e palavras de reconhecimento entre si. Reúnem-se a portas fechadas e o que fazem é desconhecido do público em geral. Não estou revelando segredo algum de sociedade secreta ao que dizer que uma parte de seu trabalho visa unir seus membros por liames mais íntimos de fraternidade.
Entre os muitos tipos de sociedades secretas a mais conhecida é a Franco-Maçonaria. Sob uma ou outra forma, a Maçonaria sempre existiu. É mais antiga que qualquer das religiões existente, pois que os sinais e símbolos maçônicos hoje usados se encontram esculpidos nos monumentos do Egito antigo. O público pode ver nas casas que vendem objetos maçônicos os "aventais" e "colares" que os maçons usam em suas cerimônias; raras vezes eles aparecem com suas alfaias em público. Os faraós do Egito apresentam-se nos monumentos, usando o colar e o avental, posto que o avental de então não seja quadrado como o de hoje, porém triangular. Certos sinais maçônicos aparecem também no famoso "Livro dos Mortos".
Por que é que a Maçonaria tem persistido através das idades, enquanto que as religiões, sucedendo-se, vêm e vão? Há duas razões principais para isso. A uma delas já aludi, e é a fraternidade. Os que entram para sociedades secretas, que possuem os ideais da Franco-Maçonaria, acham-se ligados uns aos outros por fortes laços de fraternidade. Essa fraternidade se dirige em primeiro lugar aos membros da sociedade secreta, porém não deve parar por aí. O verdadeiro maçom deve praticar para com todo o mundo as três grandes virtudes da Maçonaria sobre as quais constantemente se insiste nas reuniões maçônicas e que são: "Amor Fraternal, Socorro e Verdade". O maçom deve ser caridoso, homem de palavra, e cheio de simpatia para com todos que dele se aproximarem.
Por que necessita ele se filiar a uma sociedade secreta a fim de praticar essas virtudes? Não são elas ensinadas em sua religião? São, porém, de certo modo, posto que sobre elas se ouça falar na Igreja, falta-lhes a intensa realidade e vida que nelas encontra em sua Loja Maçônica. Há alguma coisa em sua Loja que torna mais fácil compreender essas virtudes especiais, quando lá lhe são expostas. Acontece em sua Loja o que vulgarmente não se pode explicar, que traz o ideal da fraternidade mais para perto dos acontecimentos da sua conduta diária. Um homem pode ser bom, isto é, pode ser um centro de amor, caridade e inspiração, pertencendo a qualquer religião ou a nenhuma. Um homem é bom não pelo que as Escrituras ou os sacerdotes lhe ensinam, mas em virtude do que se encentra em seu próprio coração e mente. Na verdade, a religião auxilia o homem a despertar a bondade e a virtude latentes que nele existem, mas este pode também chegar à origem dessas virtudes sem religião alguma, se simplesmente atender às determinações internas de sua alma.
A Maçonaria toma o homem no ponto em que ele se encontra e tenta fazer vir à existência, em sua própria natureza, o sentimento de fraternidade. Digo que a Maçonaria toma o homem "no ponto em que ele se encontra", entendendo por esta expressão que a tradição imemorial da Maçonaria prescreve que todos os homens de todas as crenças podem tornar-se maçons, embora permanecendo dentro do âmbito de sua própria religião. Permiti que explique este fato por meio de um incidente que teve lugar há um século entre os maçons da Inglaterra.
Não é mais segredo que os maçons que se tem como operários e costroem um edifício, falem do "Grande Arquiteto do Universo". Alguns maçons ingleses, na época a que me refiro, desejaram precisar melhor quem é o "Grande Arquiteto do Universo", e assim quiseram que fosse feita uma declaração de que o Grande Arquiteto do Universo é "Deus", isto é, a Divindade adorada no Cristianismo que elegeu os judeus como o povo escolhido, que enviou seu Filho para salvar o mundo e cujos ensinamentos se encontram no Velho e Novo Testamentos. Tal definição do Grande Arquiteto, como Deus cristão, teria imediatamente excluído hindus, os zoroastrianos, os maometanos e outros que acreditam em Deus, porém não aceitam as tradições dos judeus, ou que Jesus Cristo seja o único Filho de Deus. A Grande Loja da Inglaterra recusou, portanto, definir a frase "Grande Arquiteto do Universo", e deixou a cada maçom tornar mais precisa a significação dessa frase, de acordo com sua tradição religiosa. Assim acontece agora que, quando um cristão presta seu juramento em certas cerimônias maçônicas, fá-lo sobre a Bíblia, e o hindu o presta sobre os Vedas, o zoroastrino sobre o Zend Avesta e o muçulmano sobre o Alcorão.
Um passo avante de modo definido na prática dos ideais maçônicos, da fraternidade, foi dado quando certos maçons franceses, há trinta anos, decidiram admitir as mulheres na Maçonaria. Esta Instituição Maçônica, que tem o seu quartel general em Paris, é conhecida sob o nome de "Supremo Conselho da Co-Maçonaria Universal", e tão rapidamente se expandiu que dificilmente se encontrará um país na Terra onde ainda não existem Lojas Co-Maçônicas. De fato, a admissão de senhoras nas Lojas Maçônicas não constitui uma inovação; é antes uma reversão ao antigo costume. Vê-se pelas pinturas nas tumbas e pelos manuscritos do antigo Egito que a esposa se acha presente quando o marido, como sacerdote, executa cerimônias; na Índia também certas cerimônias existem em que a presença da esposa é necessária. Aqueles dentre nós, homens, que são maçons, verificaram que a beleza do ritual lucrou imensamente com a cooperação das mulheres; sabemos que uma mulher pode "dirigir uma Loja" tão eficientemente quanto um homem. Em geral, as mulheres que entram para a Maçonaria, tomam-na mais a sério do que os homens; descobrem não somente ideais de fraternidade e ética, porém ainda mais um misticismo que as inspira profundamente.
É este elemento místico na Maçonaria que é hoje praticamente ignorado por todos os maçons masculinos. O especial valor do movimento Co-Maçônico para a Maçonaria em geral, resulta do fato de existir nela tão grande número de teosofistas trabalhando, que estudam as suas tradições e encontram não somente "Amor Fraternal, Socorro e Verdade", porém profundas verdades relativamente à natureza de Deus, do homem e do Universo. É pelo fato de todas as grandes verdades da religião existirem na Maçonaria, que esta tem perdurado, apesar das modificações produzidas pelas guerras e calamidades.
Há no mundo dois tipos de religião, que se acham bem ilustrados pelas duas formas de cristianismo: O Catolicismo e o Protestantismo. O primeiro caracteriza-se por múltiplos rituais com cuidadosas cerimônias; ao passo que o segundo se acha isento de muito cerimonial. Nenhuma das formas é melhor do que a outra, porém ambas produzem diferentes efeitos no indivíduo.
O propósito fundamental da religião é, como já disse, capacitar o homem e a mulher religiosos para a descoberta da sua própria religião por experiência direta, pessoal. Não tem grande importância o fato de ser essa descoberta efetuada ou não com o auxílio de cerimonial e sacerdotes. É verdade incontestável que onde quer que a religião tenha muito ritual, uma classe especial de homens experimentados em ritual, os sacerdotes, se torna necessária para o culto, como também é verdade que freqüentemente os sacerdotes se organizam a si mesmos numa classe e impõem a sua autoridade, dizendo que sem o auxílio dos sacerdotes não é possível aproximar-se de Deus. É então que se faz necessário um protesto contra a autoridade sacerdotal, como aconteceu nos primórdios do protestantismo. Um protesto, porém, contra os sacerdotes, como classe, não implica que suas cerimônias sejam ineficazes. Uma tal suposição seria o mesmo que afirmarmos, pelo fato de o motorista de um veículo estar embriagado, que os veículos não tem utilidade. Deve haver alguma utilidade nas cerimônias, pois que, desde os primórdios da religião, sempre o ritual e o cerimonial sob alguma forma têm sido associados com a religião.
Ora, a Maçonaria é, por excelência, um culto de cerimonial, posto que seu propósito é edificar os homens numa fraternidade única de cooperadores com o Grande Arquiteto do Universo. A Franco-Maçonaria Ocidental possui trinta e três graus, que se acham divididos em quatro seções conhecidas respectivamente por Maçonaria Azul, Maçonaria Vermelha, Maçonaria Preta e Maçonaria Branca. Cada grau tem o seu ritual apropriado ou modo de compreensão de como o Grande Arquiteto opera em Seu Universo; ensina com que particulares virtudes e capacidades pode um franco-maçom cooperar, entre os homens, com o trabalho oculto continuamente efetuado pelo Grande Arquiteto.
A Maçonaria ilustra, portanto, por meio do ritual, qual a conduta para um indivíduo que se determina cooperar com o Criador. As cerimônias da Maçonaria são simbólicas, isto é, revelam ao observador cuidadoso verdades secretas. Da natureza das verdades secretas eu vos posso sugerir, mostrando-vos a significação interna de um cerimonial, que todos conheceis bem em vossa religião, porém de cuja verdadeira significação poucos provavelmente se apercebem. Refiro-me a cerimônia da missa, que todo o sacerdote católico deve executar todos os dias.
Haveis inquirido já a razão pela qual o sacerdote na missa usa uma casula, tendo nas costas uma cruz? Por que há três degraus dando acesso ao altar? Por que se acha o missal a princípio do lado direito do sacerdote e depois é removido para a esquerda? Toda a ação do sacerdote é simbólica, isto é, recorda algo do que aconteceu outrora. Naturalmente, a cerimônia da missa destina-se a comemorar a última ceia, tal como se há descrito em S. Mateus 26:26-28:
"...E quando se achavam comendo, Jesus tomou o pão, abençoou, partiu e deu aos discípulos dizendo: tomai e comei; este é o meu corpo. "...E tomou o cálice, deu graças e lho deu dizendo: Bebei dele todos, pois este é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos para remissão dos pecados."
Estas palavras do Cristo não indicam que devem existir sacerdotes, diáconos, sub-diáconos; que o sacerdote deve vestir uma Alba, passar uma corda à cintura, por uma estola e uma casula; que a cerimônia da missa deve ter um intróito, um ofertório, um cânone e post comunio. Todas essas complicações se originaram dos simples atos mencionados. Por que é tão complicada a cerimônia da missa?
Porque em todos os rituais, de todas as religiões, existem certas concepções fundamentais de misticismo. E essas mesmas concepções se encontram por debaixo do ritual maçônico também, conquanto o maçom mediano nada saiba em relação a elas. Por que existe uma tão amarga hostilidade entre o catolicismo romano e Maçonaria? Por uma razão muito simples: é que ambos ensinam os mesmos mistérios.
Permiti registrar que entrei para a Maçonaria há vinte e quatro anos e me filiei à Co-Maçonaria que, então, era um movimento recente, afim de poder ajudar a causa das mulheres. Desde então tenho avançado de grau em grau. Durante vários anos fui Mestre de Cerimônias de minha Loja na Índia; depois, durante dois anos sucessivos, fui seu Venerável. Possuo o grau de Mark-Master da Maçonaria do Real Arco e pertenço a dois de seus Capítulos, um em Londres, outro em Madras (Índia); neste último ocupo a posição de Primeiro Principal. Pertenço também a vários Capítulos do Décimo Oitavo Grau da Rosa-Cruz e fui o chefe do Capítulo Rosa-Cruz ao qual pertenço, na Índia. Tenho também o Trigésimo Grau na Maçonaria, a de Cavaleiro Kadosh. Tenho consagrado templos e capítulos em muitas partes do mundo, e freqüentemente tenho sido "Oficial Instalador", quando novos oficiais numa Loja ou Capítulo são empossados. Além disso, pertenço a uma rara divisão da Maçonaria, conhecida como Rito de Mênfis, e nela ocupo o penúltimo grau; o santuário dos Ritos era em Palermo. Digo "era", porque o santuário deste rito encontra-se agora fechado, afim de não entrar em conflito com os decretos do governo fascista. Sempre me hei de lembrar que, quando fui admitido ao Santuário do Rito de Mênfis, durante uma parte da cerimônia foi usada a espada de Guiusepe Garibaldi, que fora um membro do Santuário. Menciono todos estes fatos acerca de minha pessoa, afim de vos demonstrar que sou não somente um maçom, porém um dos estudantes dos mistérios e tradições maçônicas. Foram os mistérios da Maçonaria os que sempre me fascinaram; a fraternidade ensinada na Maçonaria é apenas o ABC de conduta que aprendi como teosofista, muito antes de me tornar franco-maçon.
Pertenço a uma religião, o Budismo, que não possui sacerdotes consagrados, nem cerimônias de culto considerada como necessária à santidade. Iniciei, portanto, a minha vida com uma tendência anticerimonial, porque se sabe, pelos exemplos da história, como os sacerdotes, com suas cerimônias, suprimem a liberdade do pensamento e da ação. Porém cedo, após haver entrado na Maçonaria, comecei a verificar que as cerimônias do Hinduísmo eram muito semelhantes às do catolicismo romano e que a maçonaria tinha muitos pontos de contacto com ambas. Assim, pois, comecei a estudar o ritual da missa, e a ler, ao mesmo tempo, certos rituais antigos do Hinduísmo. E ao percorrer, um por um, ascencionalmente, os graus da Maçonaria, sentia-me sempre bem, pois que rapidamente compreendia o significado interno de cada grau, por haver estudado o cerimonial da missa e o que de análogo havia no Hinduísmo em relação à ela. Permiti que eu vos esboce a idéia que se encontra sob o cerimonial.
Todo ritual parte do axioma de que Deus existe. Não importa que nome Lhe seja dado. Esta Divindade é sempre um construtor, não um Deus imóvel, simples espectador. Ele não criou o Universo outrora somente, mas o está criando a todo instante. A Divina Ação é perpétua; se por um instante o Grande Arquiteto repousasse em Sua ação, o Universo morreria, como fenece uma flor.
Existe, porém, uma segunda verdade sobre a qual todos os cerimoniais estão fundamentalmente edificados. É que a criação do Universo por Deus é um ato de autosacrifício. Ensina-se no Cristianismo que o Cristo é o "Cordeiro Imolado desde o começo do mundo" e que veio afim de ser crucificado; que a Sua crucificação, de certo modo misteriosa, faz parte do plano de Deus para a salvação da Humanidade. Se Cristo não viesse voluntariamente a este mundo, com conhecimento prévio de que seria torturado e crucificado, não existiria hoje caminho aberto aos homens para a redenção. Esta mesma verdade é ensinada no Hinduísmo. Foi pelo fato de Prajapati, o Criador do Universo em Pessoa, se haver deitado sobre um altar, para aí ser oferecido como vítima, que o Universo veio à existência. Todo o misticismo ensina esta mesma verdade - a de que Deus tem que morrer, voluntariamente, afim de que o Seu Universo e os Seus filhos possam vir à existência. A morte de Osíris no Egito, a de Átis na Assíria, a de Cristo na Palestina, a de Hiram Abiff, quando o Templo do Rei Salomão estava sendo construído, todas elas revelam a mesma verdade de que o Absoluto que chamamos Deus ou o Grande Arquiteto do Universo, executou no início do mundo um ato voluntário de imolação de si mesmo, afim de que as almas individuais pudessem vir à existência. É por isso que em vosso ritual cristão da missa o santo pão e o vinho consagrados se tornam o Corpo e o Sangue de Cristo, e são denominados "Hóstia", palavra que significa "vítima".
E este autosacrifício de Deus, sem o qual a criação do Universo não é possível, é uma ação contínua, isto é, está se sacrificando a todo instante pelo bem de Seu Universo. Existe um outro axioma em misticismo: o de que Deus e o homem são um e não dois. Por muito diferente que pareça o homem de Deus, quer em bondade, quer em grandeza, no entanto, de certa maneira mística, tanto a bondade como a grandeza de Deus se acham latentes nele. Desde que o homem, pois, em certo modo é Deus, desde que é, por assim dizer, "Deus Encadeado", a sua felicidade vem da sua imitação de Deus. Se Deus cria, o homem deve também criar; se Deus tem necessidade de morrer, o homem necessita de morrer também; se a morte de Deus é um sacrifício voluntário, o homem precisa, também, sacrificar-se voluntariamente; e, finalmente, se Deus, morto, ressurge dentre os mortos, também o homem, ao morrer, passará além da morte, para a imortalidade. A grande máxima em todo o ritualismo é "em cima, como em baixo", isto é, essa seqüência de acontecimentos divinos que tem lugar no reino invisível de Deus, acha-se de certo modo misterioso refletida em nosso mundo humano, nos acontecimentos desta terra, desde que tenhamos olhos para ver.
Compreendereis agora porque durante a missa o sacerdote usa casula, um vestuário com uma cruz nas costas. É porque, nessa ocasião, o sacerdote representa o Cristo. O sacerdote cristão tem um papel dual na cerimônia; ele é ao mesmo tempo o cristo que se oferece como vítima para a salvação do mundo e um representante do povo, que intercede perante Deus, afim de que Cristo se manifeste sob o aspecto de pão e vinho. O altar, de acordo com os rituais católicos, é tanto o calvário como a mesa da última ceia. De qualquer maneira o sacerdote comemora sempre o sacrifício do Cristo no calvário; esta comemoração, porém, não constitui somente um mero registro de um acontecimento que teve lugar há dois mil anos; a comemoração consiste em se tornar efetivo esse acontecimento, reproduzindo-o dia após dia por meio de um ritual. A crucificação do Cristo tem lugar a todo instante, tal como seu corpo outrora foi despedaçado na Palestina, assim também todos os dias, sobre milhares de altares e sob o símile do pão consagrado, é Ele partido. Pois é pelo fato de o autosacrifício de deus ser um autosacrifício perpétuo, que o homem pode elevar-se de sua humanidade limitada até a realização de si próprio como Divindade.
É esta mesma verdade concernente ao autosacrifício que é ensinada na Maçonaria. Cada maçom deve ser um construtor; é um operário sob a direção do Grande Arquiteto que planeja um edifício maravilhoso, que é a "Grande Loja Eterna", o Universo perfeito. Para construção desse edifício perfeito, cada maçom tem que trazer sua "pedra perfeita", perfeita por haver sido experimentada e constatada como "verdadeira" pela perpendicular, pelo nível e pelo esquadro. Ele não pode conhecer o verdadeiro segredo de sua arte enquanto não passar através de certas experiências de fé e martírio e saber que, como construtor, virá a perder a sua vida, e como indivíduo fiel ao seu juramento, ressurgirá novamente dentre os mortos. Necessita buscar o que estava perdido e descobri-lo, afim de poder cooperar com alegria na obra que o Grande Arquiteto do Universo está executando.
Disse já que um axioma inerente a todo verdadeiro cerimonial é que "o que está em baixo é como o que está em cima". Eis porque toda Loja Maçônica é, simbolicamente, uma miniatura do Universo, com um teto que é o céu. O Venerável de cada Loja é uma representação do Rei Salomão, que outrora construiu um Templo perfeito; porém, ao construí-lo, o próprio Rei Salomão era somente um representante do Grande Arquiteto. A grande verdade encontrada em todo o misticismo de que Deus mora em nós, ensinada no Cristianismo pelas palavras de S. Paulo, "Cristo em vós, a esperança de Glória", encontra-se no Hinduismo nas palavras "tat tvem ai" (tu é Aquele), esta mesma verdade aparece na Maçonaria na reverência prestada ao Venerável em sua capacidade Simbólica, e na oportunidade proporcionada a todo aprendiz ingressante de tornar-se um Mestre em sua Loja por meio de fiel serviço.
Na Maçonaria Azul, na Vermelha, na Preta e na Branca cada grau superior ensina novas verdades, revelando o significado oculto da máxima: "O que está em baixo é como o que está em cima". Grau a grau o maçom aprende a desenvolver novos aspectos de seu caráter. Desenvolve essa faculdade latente, não somente para si mesmo, mas também para a humanidade. Pois assim como o sacerdote na missa é o intercessor perante Deus em nome do povo, assim também o verdadeiro maçom executa seu trabalho na Loja, não para si mesmo, mas para o mundo. É pelo fato de em cada sessão de Loja Maçônica que executa bem o seu trabalho, alguma coisa de útil e inspirador irradia para o mundo, que a Maçonaria não pode ser suprimida, posto que certos governos o hajam tentado. É perfeitamente verdade que os maçons em certos países intervieram nos negócios nacionais, umas vezes sabiamente, outras não. A independência da Itália foi grandemente auxiliada pelos maçons, que protegeram os patriotas, perseguidos pelos tiranos. Deu-se o mesmo em outros países, onde os maçons se puderam ao lado das liberdades do povo. Penso, porém, que pouca dúvida resta de que, em alguns países, onde o verdadeiro propósito da Maçonaria não foi compreendido, a sua organização em massa foi utilizada de um modo destituído de sabedoria, no sentido de dominar a política nacional. Deixando de lado essas exceções à benéfica tradição da Maçonaria, permanece o fato fundamental de que, onde maçons se reúnem em Lojas "sobre o esquadro", as forças da Luz Oculta de deus nos corações dos homens são libertas para benefício do mundo. Porque é que libertam essas forças, reunindo-se a portas fechadas e guardando seus segredos zelosamente?
É um axioma em Maçonaria que os maçons se reúnem para trabalhar. Que espécie de trabalho particularmente útil para o mundo podem eles executar com seus misteriosos segredos? Este trabalho é de natureza tríplice. O primeiro trabalho que fazem é no sentido de intensificar o espírito de moralidade no mundo. Toda a reunião maçônica, seja de uma Loja, seja de um Capítulo, tem como aspecto regular de seu trabalho a afirmação, tanto ao candidato que é iniciado, como aos irmãos mais velhos, de certas verdades éticas referentes à reta conduta. O maçom ideal é um homem de conduta perfeita, observando, tanto em espírito como na letra, os preceitos da mais alta moralidade. Domina seus corpos, purifica suas emoções e torna-as elevadas pelo adestramento na contemplação de horizontes mais amplos. Dado o fato de os maçons não serem reclusos, que se retiram do mundo, porém homens e mulheres que nesse mundo vivem e trabalham, a moral maçônica não é abstrata, mas intensamente prática.
Como em uma Loja estas verdades referentes ao amor fraternal, socorro e verdade se acham expostas em detalhes, e como cada maçom presente a elas lhes presta seu assentimento, essas verdades são facilitadas em sua realização aqueles que não são maçons. Um pequeno corpo de pessoas que ardentemente desejam compreender o que seja a mais elevada moral, intensifica as aspirações morais do mundo inteiro, reunindo-se a portas fechadas. O pensamento é um poder formidável, e quando esse poder é gerado, não por indivíduos separados, porém reunidos, como numa Loja, seu poder é acrescentado em progressão geométrica, de acordo com o número daqueles que cooperam e com a intensidade de sua aspiração. Toda a reunião maçônica, seja de Loja ou Capítulo, torna a compreensão das verdades morais um pouco mais fácil por parte do mundo em geral. Todo o homem que não seja maçom e que deseja saber onde se acha "o Caminho, a Verdade e a Vida", aproxima-se mais de sua meta, pelo fato de um pequeno grupo de seus semelhantes se reunir em segredo para executar seus ritos.
A segunda parte do trabalho que a Maçonaria executa é o de auxiliar a dissipar as nuvens que cobrem as mentes dos homens em relação ao seu futuro, após seus corpos haverem voltado ao pó de que são constituídos. Sobre esta parte do trabalho da Maçonaria moderna, nada posso dizer numa reunião pública; porém, como vos disse, a Maçonaria continua as antigas tradições dos mistérios do Egito e da Grécia, de Israel e da Índia. Em todos esses antigos mistérios, como, por exemplo, nos mistérios de Eleusis, uma parte do trabalho feito em segredo era o de proporcionar ao iniciado a certeza de que, para além do túmulo, semblantes amigos o saudariam e que ele entraria, não em terra estranha, porém na "Grande Loja Eterna", onde todas as coisas lhe serão familiares, por ter trabalhado numa Grande Loja aqui em baixo. Se cada maçom conhecer o que a Maçonaria lhe ensina, não poderá ignorar a imortalidade da alma. Se qualquer ramo da Maçonaria nada fizer para perpetuar a tradição maçônica, estará desperdiçando uma boa parte de seu tempo e de sua energia.
Chego agora à terceira espécie de auxílio que os maçons proporcionam ao mundo. O que direi parecerá coisa nova a muitos maçons, pois existe muito de mera fórmula e pouco de realidade por detrás dela.
No entanto, seja pelo fato de a simples forma ser atrativa, o que é fora de dúvida é de que o maçom devotado à sua Loja acha verdades morais de mais fácil compreensão, que quando essas mesmas verdades lhe são pregadas de um púlpito. Existe, porém, uma admirável realidade por detrás da forma, e é unicamente essa realidade invisível que torna a Maçonaria um tão poderoso fator para o bem do mundo.
Já fiz menção da antiga máxima "o que está em baixo é como o que está em cima". "Em cima" está a consciência de Deus, que sustenta todo o mundo visível e invisível em sua Natureza. Na mente de Deus, o Universo não é qualquer coisa que, uma vez criada, fique para sempre estática. Deus criou o Universo afim de que ele chegue a perfeição, estágio após estágio. Na mente Divina, onde a perfeição última de todas as coisas - homem, quadrúpede, pássaro, planta e rocha se acham decretada, existe uma série de acontecimentos, direcionando todos para a perfeição. Usando o símile de um ritual, na Mente de Deus a todo instante está tendo lugar um acontecimento maravilhoso e belo. É como se um drama perfeito, um ritual inteiramente belo, estivesse sendo representado em Sua Mente, desenvolvendo, por esse modo, o Seu drama de fazer sair a perfeição da imperfeição. Este ritual é a obra de Deus, como Grande Arquiteto do Universo. Ele é o Venerável de Sua "Grande Loja Eterna".
Quando, portanto, aqui na terra, é ordenado um ritual, simbolizando esta eterna seqüência de acontecimentos no drama Divino da Grande "Loja Eterna", então alguns dos poderes dos reinos espirituais são atraídos a terra para servirem de auxílio aos homens.
É esta unidade misteriosa do que está "em cima" e do que está "em baixo" que constitui o significado real da cerimônia da missa, como sabe todo católico místico. A autoimolação de Cristo, que teve lugar uma vez, deve ser comemorada diariamente por todo sacerdote, afim de que o poder de Cristo possa ser atraído para a terra em auxílio dos homens. A história da vida de Cristo, desde o nascimento até a crucificação e todas as estações da cruz, estão sendo representadas a todo instante num reino místico, embora presentemente a dor da tragédia tenha passado para Ele. Como essa história da vida é sempre representada em símbolo (como se faz na missa), o reino do espírito se une ao reino da matéria, e neste símbolo do pão e do vinho desce Deus à terra outra vez para habitar entre os homens.
Assim também se dá com a Maçonaria. O Grande Arquiteto trabalha a todo instante construindo o Templo Perfeito. Quando os maçons trabalham simbolicamente em Loja, para construir um Templo com "Colunas", com três "Pilares", simbolizando a Tríplice Natureza do Grande Arquiteto - Sabedoria, Força e Beleza - os dois reinos do espírito e matéria se unem, e a Grande Loja Eterna envia suas forças espiritualizantes para a Loja aqui em baixo. É por isso que toda Loja Maçônica, ao encerrar sua reunião, distribui suas forças para o mundo. Tal como se dá com um reservatório que haja lentamente captado água de muitas pequenas correntes e por fim transborda, irrigando os campos, assim se dá com uma Loja Maçônica. Os maçons trabalham como instrumentos da "Grande Loja Eterna", pela qual são distribuídas forças para auxiliar os homens.
Temo haver conduzido alguns dentre vós demasiado longe no reino do misticismo; não penseis haver eu elaborado belas teorias tiradas da minha cabeça. Lembrai-vos de que a Maçonaria é muito antiga; A Maçonaria moderna é apenas a última expressão dos mistérios que foram poderosos no Egito, na Grécia e em Israel, e o são ainda na Índia e na China. Muitos maçons modernos cuidam simplesmente da boa camaradagem, que as reuniões e banquetes da Loja lhe proporcionam, Porém entre os maçons há crianças, como também existem os mais velhos e mais sábios. Estes últimos hão de ter já descoberto algumas das misteriosas verdades que se referem ao poder secreto da Maçonaria, os quais vos tenho procurado descrever, sem violar meus compromissos maçônicos.
Há um fato interessante sobre cerimonial maçônico, e é que ele não cansa o indivíduo, quando propriamente executado. Certamente existe uma grande soma de atividade no ritual, nos Oficiais que tem de estar alerta a todo instante. Como atores no placo, tem eles que decifrar suas partes, que são às vezes difíceis para aqueles dentre nós que já ultrapassaram a meia idade e cuja memória está enfraquecida. Se o ritual for executado brilhantemente, como acontece quando todos os que estão presentes conhecem suas partes perfeitamente, uma desusada espécie de vitalidade se verifica na reunião maçônica. Como até o presente tenho servido em diversos cargos, e como trabalhadores mais jovens, tanto mulheres quanto homens, estão se apresentando para continuar o trabalho, posso agora me sentar "no Oriente" como veterano, e vigiar e contemplar.
E esta vigilância e contemplação encerram uma notável fascinação. Muito tive de meditar em assunto espiritual, mas isto me é agora inteiramente familiar. No entanto, ao ouvir as palavras que tantas vezes tenho repetido, observo certas coisas que dúzias de vezes tenho visto, e me aparecem subitamente novas verdades que não havia descoberto antes. Simbolismo e alegoria são duas maneiras pelas quais são ensinadas as verdades superiores aos maçons; eles me são agora familiares, e já instruí a outros o seu significado. Entretanto, agora mesmo, ao sentar-me no "Oriente", o antigo ritual possui uma frescura e beleza que me haviam escapado. O ritual não envelhece, mesmo que se o conheça muito bem. Por outro lado, cada vez que observo seu desenvolvimento, descubro alguma nova verdade quanto à vida e à conduta. Por que é que a Maçonaria não envelhece?
Porque a Maçonaria é uma exposição da vida - a vida que nós temos de viver. Não se trata de um mero cerimonial combinado por alguém que tivesse imaginação dramática. A Maçonaria é uma exposição da vida, justamente como se dá na celebração da missa, que o é igualmente. É porque cada grau da Maçonaria, desde o primeiro até o trigésimo terceiro, é uma exposição da vida, que "uma vez que se seja maçom, sempre o há de ser".
Para terminar, qual é a mensagem da Maçonaria? É a de que cada um de nós deve ser um construtor, trabalhando na ordem hierárquica, de acordo com sua capacidade. Cada um deve contribuir com seu trabalho, crescer por meio dele, afim de se tornar capaz de um esforço maior. Pois a vida não se parece com uma corrente tranqüila que passe vagarosamente entre duas margens; mais se assemelha a uma torrente, cujas águas são dirigidas através de uma estação de força elétrica, para gerar uma corrente que possa ser enviada a fábricas e lares distantes. Somente quando a vida é criadora, gerada por meio da mente e do coração, da intuição e do espírito, é que a vida é verdadeiramente digna desse nome. Transformar a vida afim de criar mais vida - tal é a mensagem da Maçonaria para o franco-maçon. E é por isso que termino com sua prece: "Que Deus preserve a Arte!".
* C.Jinarajadasa, ex-presidente internacional da Sociedade Teosófica.
Mostrando postagens com marcador Textos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Textos. Mostrar todas as postagens
8 de agosto de 2012
30 de junho de 2012
Os Ensinamentos Maçônicos
Os ensinamentos maçônicos devem ser amplamente difundidos entre todos os Maçons e sua metodologia deve ser explicada previamente aos que pretendem ingressar na Ordem Maçônica. Os Mestres deverão estar preparados para a missão devendo expô-la quando da visita de avaliação prévia do pretendente. Esta informação possibilitará ao pretendente saber antecipadamente o que a Ordem poderá lhe oferecer, possibilitando-lhe analisar se realmente a metodologia e o direcionamento dos ensinamentos maçônicos são os que buscam para a sua evolução pessoal. O pretendente ao ingresso na Ordem deve estar convicto de que vai participar de uma sociedade voltada ao aprimoramento individual e que os demais participantes tem a mesma preocupação, o que não os inibe, ao contrário, prepara-os às atividades coletivas. O desconhecimento desse fundamental objetivo dos ensinamentos maçônicos poderá levar o pretendente, após o seu ingresso, ao defrontar-se com posturas pessoais discordantes das suas ou desiludir-se com o que pensou ser a Ordem, desligar-se intempestivamente.
Os ensinamentos maçônicos devem ser transmitidos com a constância e repetições necessárias para o seu perfeito entendimento.
Características dos ensinamentos maçônicos:
– Exclusivamente individual;
– Repetitivo e paulatino; mostra o caminho, mas não exige a caminhada.
– O maçom é um voluntário;
Os ensinamentos maçônicos devem ser constantes, paulatinos e repetitivos para que sejam sempre oferecidos aos recém-admitidos. Os maçons de antigamente não eram letrados e os procedimentos litúrgicos eram memorizados. As funções dos administradores e dos auxiliares eram sempre repetidas no inicio de cada reunião para conhecimento de todos e para a sua preservação. Com o advento dos rituais escritos, este procedimento passou a fazer parte integrante das reuniões, o que perdura até os dias de hoje.
Os ensinamentos maçônicos também estão fundamentados nas práticas cristãs, mas não tem a mesma metodologia de ensino adotado pelas associações cristãs de evangelização. Os ensinamentos maçônicos são voltados ao indivíduo, oferecendo a cada um a oportunidade de evolução pessoal. As associações religiosas evangelizadoras procuram maximizar as suas atividades, priorizando a divulgação dos seus ensinamentos através das pregações em massa. São metodologias de características diferentes e, se não entendidas cada uma no seu contexto, podem tornar-se conflitantes no íntimo de cada estudioso, mesmo ambas tendo o mesmo objetivo: a felicidade do homem.
Evangelização é a pregação do Cristão (a mensagem cristã) e, por extensão, qualquer forma de pregação e proselitismo, com fins de adquirir adeptos, produzir conversão ou mudanças de hábitos, crenças e valores. No cristianismo, a evangelização é o sistema, baseado em princípios e métodos apresentados no Novo Testamento, pelo qual se comunica o Evangelho (Boa Nova) Cristo a (todo) pecador sob a liderança e poder Espírito Santo. Afirma o apóstolo Paulo: “Como crerão em Jesus se ninguém lhes anuncia?” (Rom. 10,14). Está em Atos dos Apóstolos, capítulo 14 14:21: “Depois de pregar a Boa Nova ali, e de fazer muitos discípulos, eles voltaram a…”
O processo de evangelização cristã sempre teve como foco “o outro”. Os costumes, a moral e os valores sociais da sociedade ocidental atual são decorrentes dessa forma de pregação. No ocidente, quase a totalidade dos jovens tiveram a sua formação com base na metodologia evangélica das pregações nas escolas paroquiais levando-os a analisar todos os acontecimentos dentro dessa metodologia, onde se avalia o que pode ser corrigido na atitude dos outros antes de avaliar o que pode ser corrigido em si.
Assim formados desde a infância, não raro passam a avaliar mais como os outros estão agindo do que a suas próprias ações. Na análise de suas convicções e interesses, surgem julgamentos e conselhos para corrigir as atitudes dos outros, conselhos que nem sempre são seguidos por quem aconselha. Na máxima cristã “Ama o próximo como a ti mesmo” não está implícito que o “próximo” tenha que ser “como ti” para ser amado. A fraternidade, o principal ensinamento do Mestre Jesus, resumida na máxima: “Amai-vos uns aos outros”, nem sempre é priorizada nas atitudes. Por formação filosófica, a sociedade ocidental é mais preocupada em oferecer aos outros a oportunidade de corrigir-se do que em corrigir a si própria.
A evangelização e os ensinamentos maçônicos não são conflitantes. A metodologia dos ensinamentos maçônicos é voltada ao aperfeiçoamento do indivíduo, trazendo a tona as suas qualidades latentes e aumentando a sua autoestima, tornando-o consciente da sua capacidade de amar o “próximo” como o “próximo é” e de, pela evangelização, levar-lhe a crença cristã.
O conteúdo dos ensinamentos maçônicos permite-nos afirmar que a Maçonaria é uma escola de aperfeiçoamento exclusivamente individual. Este é o principal fundamento dos ensinamentos maçônicos.
No Grau de Aprendiz, que é o primeiro contato da Ordem com o recém-admitido, é apresentada toda a essência dos ensinamentos maçônicos.
Todos os autores maçônicos referem-se ao simbolismo da “pedra bruta” que deve ser desbastada e preparada para sua utilização na construção de uma sociedade mais justa, mais igualitária e mais fraterna. É comum ouvir do Maçom a expressão: “Estou trabalhando a minha “pedra bruta”, quando se refere aos seus estudos e práticas maçônicas. Dito dessa forma poderá dar margem ao entendimento de tratar-se de dois personagens distintos; o Aprendiz e a “pedra bruta”. Este entendimento é divergente do ensinamento maçônico, pois o Aprendiz é a “pedra bruta”. O Aprendiz é o objeto a ser desbastado.
A direção que se deve dar ao cinzel é a si.
Em nenhum momento, nos rituais maçônicos, há indicação que o cinzel deva ser voltado aos outros. Em si as pancadas no cinzel são dadas de acordo a sua sensibilidade; se nos outros, o agente não colocará no maço o mesmo peso que coloca quando desbasta a si mesmo, certamente seria mais pesado. Não é atitude maçônica direcionar o cinzel para corrigir imperfeições alheias.
Para a Maçonaria são escolhidos os “bons” nas mais diversas atividades humanas oferecendo-lhes a oportunidade de tornarem-se “melhores”
Há diferença entre o aprendiz de pedreiro (maçom) operativo (que trabalhava nas atividades de construção) e o Aprendiz Maçom. Este não tem necessariamente atividade nas construções. A representação do aprendiz de pedreiro operativo é um jovem trabalhando para desbastar uma pedra bruta. Já, as esculturas e os desenhos clássicos representando um aprendiz das escolas de mistérios sempre mostram a figura de um homem esculpindo a si mesmo.
O Aprendiz Maçom, para esculpir a escultura do homem que deseja ser, terá que utilizar a matéria prima que recebeu por desígnio da Providência, potencializar os recursos disponíveis na Natureza e trabalhar com a Vontade representada pelo “maço e o cinzel” utilizados para aparar a arestas que escondem no interior de seu ser o homem perfeito ali contido.
Na Maçonaria, esta confusão entre o aprendiz operativo e o aprendiz admitido por processo de Iniciação pode ser observada em trechos das cerimônias de recepção do candidato. Em alguns rituais maçônicos, o Iniciando à Ordem, ao ser levado para executar a sua primeira lição no desbaste da “pedra bruta”, é orientado para dirigir corte do cinzel à pedra disforme que faz parte da decoração templo, em vez de direcioná-lo a si.
Este procedimento poderá induzi-lo, desde o seu primeiro aprendizado, a intuir que seu trabalho é desbastar o que vê a sua frente (o outro) e não o que está em si. Tendo a pedra bruta do templo como uma representação simbólica de seu estado naquele momento, o Iniciando deveria direcionar o cinzel sobre si e então trabalhar com o maço. A pedra bruta que se encontra na decoração do templo, bem como a pedra polida e prancheta, são as joias fixas que devem estar presentes para o funcionamento da Loja.
Um Maçom é um Obreiro da Arte Real que está concluindo a Obra projetada pelo Grande Arquiteto do Universo, que é Deus. Essa obra é “ele”. Trata-se de uma transformação individual, resultado do seu esforço e da sua vontade pessoal. Esta obra só estará concluída quando ele transformar-se de “pedra bruta” em “pedra polida” e como tal for reconhecido pelos “outros” (os Irmãos, a sociedade, etc..). Não é ele que se avalia como pronto. São os outros que como tal o avaliam. As ferramentas simbólicas maçônicas são instrumentos de uso específico para o desenvolvimento pessoal. Dependendo de como cada Obreiro preparou-se e de acordo com o seu ajuste às necessidades dos projetos da comunidade, será reconhecido pelos outros como adequado àquele projeto. São os outros que avaliarão se a “pedra” poderá ser utilizada ou não nas obras a serem realizadas.
A “pedra” só estará pronta quando não houver necessidade do mínimo ajuste nas pedras vizinhas para o seu perfeito ajuste.
Se houver necessidade de interferir no polimento e características das outras contíguas para o seu ajuste, ela não está pronta. Permanecerá ao lado até que o trabalho de escultura seja refeito de modo que se ajuste às outras pedras, sem que estas precisem de reparos. Se o desbaste está incompleto, é apenas uma pedra no meio do caminho dos que precisarão fazer manobras para evitar que as suas asperezas e seus desajustes possam ameaçar o resultado da obra desejada. A “pedra” ainda bruta certamente ficara em um canto qualquer da sociedade, causando-lhe instabilidade e desarmonia.
O maçom não propõe que os outros mudem para que ele seja feliz, procura mudar o possível em si para que todos sejam felizes. Esta é a essência do ensinamento maçônico.
Está subentendido nos ensinamentos maçônicos a máxima: “O que eu devo mudar em mim para que ele (o próximo) seja feliz”, independente de se o outro é bom ou mau; réu ou julgador. Ser viciado ou virtuoso é uma escolha pessoal de cada um, que ao Maçom não compete julgar ou tomar atitudes para obrigá-lo a proceder de acordo com os valores, sempre pessoais, que crê serem os corretos. Pela lei da “causa e efeito” cada um é responsável por suas ações e pensamentos.
Maçonicamente cada um é responsável pessoal e único pela sua evolução. Os ensinamentos maçônicos oferecerão a oportunidade de correção. Quando concluída será reconhecida como tal pelos outros. Nesta ideia está embutido o conceito de amor universal. O amor fraterno dará aos seus Irmãos maçons a tolerância para aceitarem as tentativas de uma “pedra” ainda bruta para ajustar-se à obra, orientando-a se assim ela desejar, para o seu perfeito desbaste e ajuste. Se as imperfeições permanecerem, a “pedra” não será utilizada, mas sempre lhe será fraternalmente oferecida nova oportunidade de reajuste.
A não ser quando em cumprimento de atividade e funções especificamente instituídas na legislação da Ordem ou da comunidade que pertence, o Maçom não julga e não critica posturas pessoais de outrem. Se solicitado, fará ponderações sobre o solicitante, jamais sobre terceiros. Não é uma atitude maçônica interferir na postura pessoal dos outros, achando que estes devem ou não fazer isto ou aquilo. A cada um cabe reconhecer os que estão em condições de compartilhar projetos comuns e convidá-los.
O Maçom deve formar-se para depois colocar-se ao serviço da comunidade. Aprender e praticar. O desconhecimento dos ensinamentos maçônicos dificulta o relacionamento dos maçons entre si e dos maçons com a Ordem. Quanto menor é o preparo individual, maior será a dificuldade na participação das atividades da Ordem e mesmo fora dela.
Cada Maçom tem a sua individualidade respeitada: sua cultura, seus pontos de vista políticos, suas convicções religiosas e suas características psíquicas. Todo maçom é um homem livre, ciente da capacidade de realizações, um cidadão bem sucedido e respeitado por suas atividades profissionais e sociais que o levam a ser convidado a ingressar na Ordem.
O maçom é um voluntário.
Não é obrigado a fazer qualquer coisa que seja. Ingressou na Ordem por livre vontade e com isso assumiu uma responsabilidade financeira como em qualquer organização, sendo livre para sair a qualquer momento; até que caracterize abandono, frequenta a Loja com a assiduidade que deseja; estuda se quiser; atinge os graus mais elevados se assim o desejar; ocupa cargos que aceitou por que quis: é eleito por que se candidatou; pode mudar de Loja se assim julgar conveniente; nem as contribuições para benemerência são obrigatórias se não aprovadas em assembleias de que participa.
Centralizados no aperfeiçoamento individual, os ensinamentos maçônicos preparam o estudante para o convívio entre diferentes num conjunto harmônico; prepara para a tolerância com os contrários; para o respeito pelas convicções individuais e para a convivência entre atitudes divergentes.
Desbastado de suas imperfeições, o Maçom está pronto para servir à sua comunidade, oferecendo-se quando solicitado ou apresentando sugestões para as mudanças que julgar necessárias para o bem estar e a harmonia da Ordem e ou da comunidade. Como sugestões são opiniões pessoais devem ser tratadas como tal. Se traduzirem as aspirações dos envolvidos, a concretização terá o consenso espontâneo da maioria dos indivíduos e aquele que a propôs certamente será convocado para liderar a sua implantação.
Não é fácil o comando onde os comandados são voluntários e não há recompensa financeira pelo trabalho realizado. O sucesso da empreitada está associado à capacidade de conseguir motivar a maioria para acompanhá-lo. Para a administração de uma sociedade constituída por voluntários há necessidade de lideranças que aglutinem as ansiedades e administrem as diversidades individuais, dirigindo suas energias ao trabalho comum.
A principal característica do líder de voluntários é fazer o que o grupo quer.
Nas sociedades constituídas por voluntários, são os operosos que a fazem atingir os seus objetivos. São raros os casos das organizações que conseguem uma participação efetiva da maioria de seus membros. Geralmente os resultados obtidos são decorrentes de atividades isoladas de membros dedicados. São sempre os mesmos que participam de quase todas as atividades. A comunidade está habituada a conviver e a reconhecer a dedicação daqueles que sempre participam.
É próprio da tradição maçônica o reconhecimento pelos Irmãos. Este é o salário do Obreiro da Arte Real: o reconhecimento. Não há outro salário na Maçonaria. Para o Maçom é gratificante a satisfação da missão cumprida e de ser reconhecido por isso.
Cada um dos Membros reconhece o novo integrante que ingressa na ordem. A Ordem reconhece o trabalho do Maçom que por isso, quando chega a Mestre, recebe um diploma e uma medalha. Não foi sem méritos. O novo Mestre pode não ter tido uma brilhante história, mas atingiu o que desejava. Todos os Maçons sabem quais os que se dedicam e frequentemente os elogiam. É o reconhecimento dos membros de suas Lojas ou de outras a que serviu. Esta é a recompensa que o Obreiro leva de retorno ao seu lar, com uma alegria nem sempre entendida e participada pelos seus familiares.
Quando o trabalho do Maçom extrapola os limites da sua Loja é reconhecido pelos Grandes Orientes com a concessão de diploma ou medalha, como se, na entrega, em nome de todos seus membros aquele Grande Oriente afirmasse: “Como um Maçom operoso os Maçons deste Grande Oriente o reconhecem”.
É próprio do ser humano desejar ser reconhecido pelos seus feitos. O clube social reconhece seu membro pelos muitos anos de apoio e trabalho com a entrega do diploma de Sócio Emérito; o Poder Municipal, em nome de todos os munícipes que o reconhecem como um cidadão participante e premia-o com a entrega do Diploma de Cidadania. Em cada diploma, medalha ou troféu maçônicos recebidos está presente a máxima maçônica: “o reconhecimento de meus Irmãos”.
A falta de divulgação dos feitos que justificassem a homenagem pode gerar uma interpretação duvidosa sobre o seu merecimento. Não há casos da entrega de diploma e medalhas aos que nada fazem. A Maçonaria é uma sociedade justa cuja assembléia é sábia. Os maçons homenageados devem ostentar com altivez as suas medalhas para que os Aprendizes, os Companheiros e os novos Mestres o tenham como exemplo, solicitando-lhe contar a história do conjunto de suas obras, que somado as de outros Maçons “medalhados”, constituem a historia da Maçonaria.
A Maçonaria é o conjunto das ações de seus membros. É o somatório do que cada um dos seus membros é sem representá-los individualmente.
Os Maçons que receberam distinções e homenagens compreenderam o verdadeiro significado dos ensinamentos maçônicos e aplicaram-nos e por isso foram reconhecidos como tal. Há aqueles que criticam os que ostentam nas Lojas as suas muitas medalhas afirmando ironicamente: “eles andam arcados com o peso das medalhas”. Mas, vejamos: os condecorados por seu trabalho voluntário e dedicado têm como alternativa ostentar ou não as medalhas por merecido recebidas.
O pretendente a maçom é conhecido antes de ser convidado a participar da Ordem. A sua admissão é o reconhecimento pelos membros, da sua postura moral, da sua vontade de aperfeiçoamento pessoal e da sua capacidade econômica e financeira para sobreviver. Um conhecido jargão afirma: “Para a Maçonaria são escolhidos os “bons” nas mais diversas atividades humanas oferecendo-lhes a oportunidade de tornarem-se “melhores”.
Ao Companheiro Maçom, conhecedor de todas as ferramentas simbólicas, compete usá-las para construir.
Nos rituais maçônicos não há indicação de que as ferramentas simbólicas devam ser utilizadas para destruir. Se um projeto não atende aspiração pessoal de algum Membro, não quer dizer que não deva ser executado. Se há quem queira realizá-lo e que encontra quem queira auxiliá-lo, certamente o projeto atenderá aspirações de seus executantes. Neste caso, quem não concorda com o projeto, não deve atrapalhar ou impedir a sua execução, respeitando a diversidade e a individualidade das opiniões. Compete à assembleia da Loja a decisão final dos assuntos conflitantes, geralmente resolvidos com justiça, dentro da maior harmonia possível,
O Mestre é o conhecedor dos ensinamentos maçônicos e está apto a ensiná-los. O Mestre é o Companheiro que recebeu um diploma de professor, sendo-lhe transmitidas as Lendas Maçônicas que, como parábolas, serão o instrumento didático adotado para a difusão dos ensinamentos.
A máxima de São Francisco de Assis “é dando que se recebe” representa a essência da responsabilidade do Mestre. O ensinamento esotérico contido nesta máxima refere-se à Dualidade. Tudo o que entra deverá sair para abrir espaço para novas entradas. A capacidade de aprender é aumentada quando é ensinado o que se sabe. Só é “retido” o que é “doado”. O conhecimento fixa-se quando é ensinado. Tudo o que se lê nem sempre é retido na memória, mas uma vez ensinado, jamais será esquecido. Patrick Byrne, em seu livro “O Ouro dos Templários” (Editorial Estampa – Lisboa-2007-pg. 257), cita o ditado que capta a essência do conceito cabalístico: “Quando alguém se deixa penetrar pela luz, mas não a liberta, cria-se uma sombra”.
Recebendo sem distinções os intelectuais, cientistas, religiosos, livres pensadores, inventores e operários, jovens e idosos, para um convívio comum, a Maçonaria tornou-se a depositária de todo conhecimento científico e oculto produzido pelas civilizações em todos os tempos. Instituição de caráter universal, seu Quadro é composto por profissionais de todas as áreas da atividade humana, que colocam os seus conhecimentos à disposição da Humanidade. Esse conhecimento pode ser encontrado nas atividades das Lojas, seja apresentado individualmente por seus membros ou contido no simbolismo e alegorias de seus Graus e Ordens. Compete ao maçom desvendá-los e praticá-los em benefício de sua evolução pessoal e da Humanidade.
Autor: Ir∴ Edison Barsanti, 33º • M∴I∴
http://www.revistauniversomaconico.com.br/tempo-de-estudos/os-ensinamentos-maconicos/
Os ensinamentos maçônicos devem ser transmitidos com a constância e repetições necessárias para o seu perfeito entendimento.
Características dos ensinamentos maçônicos:
– Exclusivamente individual;
– Repetitivo e paulatino; mostra o caminho, mas não exige a caminhada.
– O maçom é um voluntário;
Os ensinamentos maçônicos devem ser constantes, paulatinos e repetitivos para que sejam sempre oferecidos aos recém-admitidos. Os maçons de antigamente não eram letrados e os procedimentos litúrgicos eram memorizados. As funções dos administradores e dos auxiliares eram sempre repetidas no inicio de cada reunião para conhecimento de todos e para a sua preservação. Com o advento dos rituais escritos, este procedimento passou a fazer parte integrante das reuniões, o que perdura até os dias de hoje.
Os ensinamentos maçônicos também estão fundamentados nas práticas cristãs, mas não tem a mesma metodologia de ensino adotado pelas associações cristãs de evangelização. Os ensinamentos maçônicos são voltados ao indivíduo, oferecendo a cada um a oportunidade de evolução pessoal. As associações religiosas evangelizadoras procuram maximizar as suas atividades, priorizando a divulgação dos seus ensinamentos através das pregações em massa. São metodologias de características diferentes e, se não entendidas cada uma no seu contexto, podem tornar-se conflitantes no íntimo de cada estudioso, mesmo ambas tendo o mesmo objetivo: a felicidade do homem.
Evangelização é a pregação do Cristão (a mensagem cristã) e, por extensão, qualquer forma de pregação e proselitismo, com fins de adquirir adeptos, produzir conversão ou mudanças de hábitos, crenças e valores. No cristianismo, a evangelização é o sistema, baseado em princípios e métodos apresentados no Novo Testamento, pelo qual se comunica o Evangelho (Boa Nova) Cristo a (todo) pecador sob a liderança e poder Espírito Santo. Afirma o apóstolo Paulo: “Como crerão em Jesus se ninguém lhes anuncia?” (Rom. 10,14). Está em Atos dos Apóstolos, capítulo 14 14:21: “Depois de pregar a Boa Nova ali, e de fazer muitos discípulos, eles voltaram a…”
O processo de evangelização cristã sempre teve como foco “o outro”. Os costumes, a moral e os valores sociais da sociedade ocidental atual são decorrentes dessa forma de pregação. No ocidente, quase a totalidade dos jovens tiveram a sua formação com base na metodologia evangélica das pregações nas escolas paroquiais levando-os a analisar todos os acontecimentos dentro dessa metodologia, onde se avalia o que pode ser corrigido na atitude dos outros antes de avaliar o que pode ser corrigido em si.
Assim formados desde a infância, não raro passam a avaliar mais como os outros estão agindo do que a suas próprias ações. Na análise de suas convicções e interesses, surgem julgamentos e conselhos para corrigir as atitudes dos outros, conselhos que nem sempre são seguidos por quem aconselha. Na máxima cristã “Ama o próximo como a ti mesmo” não está implícito que o “próximo” tenha que ser “como ti” para ser amado. A fraternidade, o principal ensinamento do Mestre Jesus, resumida na máxima: “Amai-vos uns aos outros”, nem sempre é priorizada nas atitudes. Por formação filosófica, a sociedade ocidental é mais preocupada em oferecer aos outros a oportunidade de corrigir-se do que em corrigir a si própria.
A evangelização e os ensinamentos maçônicos não são conflitantes. A metodologia dos ensinamentos maçônicos é voltada ao aperfeiçoamento do indivíduo, trazendo a tona as suas qualidades latentes e aumentando a sua autoestima, tornando-o consciente da sua capacidade de amar o “próximo” como o “próximo é” e de, pela evangelização, levar-lhe a crença cristã.
O conteúdo dos ensinamentos maçônicos permite-nos afirmar que a Maçonaria é uma escola de aperfeiçoamento exclusivamente individual. Este é o principal fundamento dos ensinamentos maçônicos.
No Grau de Aprendiz, que é o primeiro contato da Ordem com o recém-admitido, é apresentada toda a essência dos ensinamentos maçônicos.
Todos os autores maçônicos referem-se ao simbolismo da “pedra bruta” que deve ser desbastada e preparada para sua utilização na construção de uma sociedade mais justa, mais igualitária e mais fraterna. É comum ouvir do Maçom a expressão: “Estou trabalhando a minha “pedra bruta”, quando se refere aos seus estudos e práticas maçônicas. Dito dessa forma poderá dar margem ao entendimento de tratar-se de dois personagens distintos; o Aprendiz e a “pedra bruta”. Este entendimento é divergente do ensinamento maçônico, pois o Aprendiz é a “pedra bruta”. O Aprendiz é o objeto a ser desbastado.
A direção que se deve dar ao cinzel é a si.
Em nenhum momento, nos rituais maçônicos, há indicação que o cinzel deva ser voltado aos outros. Em si as pancadas no cinzel são dadas de acordo a sua sensibilidade; se nos outros, o agente não colocará no maço o mesmo peso que coloca quando desbasta a si mesmo, certamente seria mais pesado. Não é atitude maçônica direcionar o cinzel para corrigir imperfeições alheias.
Para a Maçonaria são escolhidos os “bons” nas mais diversas atividades humanas oferecendo-lhes a oportunidade de tornarem-se “melhores”
Há diferença entre o aprendiz de pedreiro (maçom) operativo (que trabalhava nas atividades de construção) e o Aprendiz Maçom. Este não tem necessariamente atividade nas construções. A representação do aprendiz de pedreiro operativo é um jovem trabalhando para desbastar uma pedra bruta. Já, as esculturas e os desenhos clássicos representando um aprendiz das escolas de mistérios sempre mostram a figura de um homem esculpindo a si mesmo.
O Aprendiz Maçom, para esculpir a escultura do homem que deseja ser, terá que utilizar a matéria prima que recebeu por desígnio da Providência, potencializar os recursos disponíveis na Natureza e trabalhar com a Vontade representada pelo “maço e o cinzel” utilizados para aparar a arestas que escondem no interior de seu ser o homem perfeito ali contido.
Na Maçonaria, esta confusão entre o aprendiz operativo e o aprendiz admitido por processo de Iniciação pode ser observada em trechos das cerimônias de recepção do candidato. Em alguns rituais maçônicos, o Iniciando à Ordem, ao ser levado para executar a sua primeira lição no desbaste da “pedra bruta”, é orientado para dirigir corte do cinzel à pedra disforme que faz parte da decoração templo, em vez de direcioná-lo a si.
Este procedimento poderá induzi-lo, desde o seu primeiro aprendizado, a intuir que seu trabalho é desbastar o que vê a sua frente (o outro) e não o que está em si. Tendo a pedra bruta do templo como uma representação simbólica de seu estado naquele momento, o Iniciando deveria direcionar o cinzel sobre si e então trabalhar com o maço. A pedra bruta que se encontra na decoração do templo, bem como a pedra polida e prancheta, são as joias fixas que devem estar presentes para o funcionamento da Loja.
Um Maçom é um Obreiro da Arte Real que está concluindo a Obra projetada pelo Grande Arquiteto do Universo, que é Deus. Essa obra é “ele”. Trata-se de uma transformação individual, resultado do seu esforço e da sua vontade pessoal. Esta obra só estará concluída quando ele transformar-se de “pedra bruta” em “pedra polida” e como tal for reconhecido pelos “outros” (os Irmãos, a sociedade, etc..). Não é ele que se avalia como pronto. São os outros que como tal o avaliam. As ferramentas simbólicas maçônicas são instrumentos de uso específico para o desenvolvimento pessoal. Dependendo de como cada Obreiro preparou-se e de acordo com o seu ajuste às necessidades dos projetos da comunidade, será reconhecido pelos outros como adequado àquele projeto. São os outros que avaliarão se a “pedra” poderá ser utilizada ou não nas obras a serem realizadas.
A “pedra” só estará pronta quando não houver necessidade do mínimo ajuste nas pedras vizinhas para o seu perfeito ajuste.
Se houver necessidade de interferir no polimento e características das outras contíguas para o seu ajuste, ela não está pronta. Permanecerá ao lado até que o trabalho de escultura seja refeito de modo que se ajuste às outras pedras, sem que estas precisem de reparos. Se o desbaste está incompleto, é apenas uma pedra no meio do caminho dos que precisarão fazer manobras para evitar que as suas asperezas e seus desajustes possam ameaçar o resultado da obra desejada. A “pedra” ainda bruta certamente ficara em um canto qualquer da sociedade, causando-lhe instabilidade e desarmonia.
O maçom não propõe que os outros mudem para que ele seja feliz, procura mudar o possível em si para que todos sejam felizes. Esta é a essência do ensinamento maçônico.
Está subentendido nos ensinamentos maçônicos a máxima: “O que eu devo mudar em mim para que ele (o próximo) seja feliz”, independente de se o outro é bom ou mau; réu ou julgador. Ser viciado ou virtuoso é uma escolha pessoal de cada um, que ao Maçom não compete julgar ou tomar atitudes para obrigá-lo a proceder de acordo com os valores, sempre pessoais, que crê serem os corretos. Pela lei da “causa e efeito” cada um é responsável por suas ações e pensamentos.
Maçonicamente cada um é responsável pessoal e único pela sua evolução. Os ensinamentos maçônicos oferecerão a oportunidade de correção. Quando concluída será reconhecida como tal pelos outros. Nesta ideia está embutido o conceito de amor universal. O amor fraterno dará aos seus Irmãos maçons a tolerância para aceitarem as tentativas de uma “pedra” ainda bruta para ajustar-se à obra, orientando-a se assim ela desejar, para o seu perfeito desbaste e ajuste. Se as imperfeições permanecerem, a “pedra” não será utilizada, mas sempre lhe será fraternalmente oferecida nova oportunidade de reajuste.
A não ser quando em cumprimento de atividade e funções especificamente instituídas na legislação da Ordem ou da comunidade que pertence, o Maçom não julga e não critica posturas pessoais de outrem. Se solicitado, fará ponderações sobre o solicitante, jamais sobre terceiros. Não é uma atitude maçônica interferir na postura pessoal dos outros, achando que estes devem ou não fazer isto ou aquilo. A cada um cabe reconhecer os que estão em condições de compartilhar projetos comuns e convidá-los.
O Maçom deve formar-se para depois colocar-se ao serviço da comunidade. Aprender e praticar. O desconhecimento dos ensinamentos maçônicos dificulta o relacionamento dos maçons entre si e dos maçons com a Ordem. Quanto menor é o preparo individual, maior será a dificuldade na participação das atividades da Ordem e mesmo fora dela.
Cada Maçom tem a sua individualidade respeitada: sua cultura, seus pontos de vista políticos, suas convicções religiosas e suas características psíquicas. Todo maçom é um homem livre, ciente da capacidade de realizações, um cidadão bem sucedido e respeitado por suas atividades profissionais e sociais que o levam a ser convidado a ingressar na Ordem.
O maçom é um voluntário.
Não é obrigado a fazer qualquer coisa que seja. Ingressou na Ordem por livre vontade e com isso assumiu uma responsabilidade financeira como em qualquer organização, sendo livre para sair a qualquer momento; até que caracterize abandono, frequenta a Loja com a assiduidade que deseja; estuda se quiser; atinge os graus mais elevados se assim o desejar; ocupa cargos que aceitou por que quis: é eleito por que se candidatou; pode mudar de Loja se assim julgar conveniente; nem as contribuições para benemerência são obrigatórias se não aprovadas em assembleias de que participa.
Centralizados no aperfeiçoamento individual, os ensinamentos maçônicos preparam o estudante para o convívio entre diferentes num conjunto harmônico; prepara para a tolerância com os contrários; para o respeito pelas convicções individuais e para a convivência entre atitudes divergentes.
Desbastado de suas imperfeições, o Maçom está pronto para servir à sua comunidade, oferecendo-se quando solicitado ou apresentando sugestões para as mudanças que julgar necessárias para o bem estar e a harmonia da Ordem e ou da comunidade. Como sugestões são opiniões pessoais devem ser tratadas como tal. Se traduzirem as aspirações dos envolvidos, a concretização terá o consenso espontâneo da maioria dos indivíduos e aquele que a propôs certamente será convocado para liderar a sua implantação.
Não é fácil o comando onde os comandados são voluntários e não há recompensa financeira pelo trabalho realizado. O sucesso da empreitada está associado à capacidade de conseguir motivar a maioria para acompanhá-lo. Para a administração de uma sociedade constituída por voluntários há necessidade de lideranças que aglutinem as ansiedades e administrem as diversidades individuais, dirigindo suas energias ao trabalho comum.
A principal característica do líder de voluntários é fazer o que o grupo quer.
Nas sociedades constituídas por voluntários, são os operosos que a fazem atingir os seus objetivos. São raros os casos das organizações que conseguem uma participação efetiva da maioria de seus membros. Geralmente os resultados obtidos são decorrentes de atividades isoladas de membros dedicados. São sempre os mesmos que participam de quase todas as atividades. A comunidade está habituada a conviver e a reconhecer a dedicação daqueles que sempre participam.
É próprio da tradição maçônica o reconhecimento pelos Irmãos. Este é o salário do Obreiro da Arte Real: o reconhecimento. Não há outro salário na Maçonaria. Para o Maçom é gratificante a satisfação da missão cumprida e de ser reconhecido por isso.
Cada um dos Membros reconhece o novo integrante que ingressa na ordem. A Ordem reconhece o trabalho do Maçom que por isso, quando chega a Mestre, recebe um diploma e uma medalha. Não foi sem méritos. O novo Mestre pode não ter tido uma brilhante história, mas atingiu o que desejava. Todos os Maçons sabem quais os que se dedicam e frequentemente os elogiam. É o reconhecimento dos membros de suas Lojas ou de outras a que serviu. Esta é a recompensa que o Obreiro leva de retorno ao seu lar, com uma alegria nem sempre entendida e participada pelos seus familiares.
Quando o trabalho do Maçom extrapola os limites da sua Loja é reconhecido pelos Grandes Orientes com a concessão de diploma ou medalha, como se, na entrega, em nome de todos seus membros aquele Grande Oriente afirmasse: “Como um Maçom operoso os Maçons deste Grande Oriente o reconhecem”.
É próprio do ser humano desejar ser reconhecido pelos seus feitos. O clube social reconhece seu membro pelos muitos anos de apoio e trabalho com a entrega do diploma de Sócio Emérito; o Poder Municipal, em nome de todos os munícipes que o reconhecem como um cidadão participante e premia-o com a entrega do Diploma de Cidadania. Em cada diploma, medalha ou troféu maçônicos recebidos está presente a máxima maçônica: “o reconhecimento de meus Irmãos”.
A falta de divulgação dos feitos que justificassem a homenagem pode gerar uma interpretação duvidosa sobre o seu merecimento. Não há casos da entrega de diploma e medalhas aos que nada fazem. A Maçonaria é uma sociedade justa cuja assembléia é sábia. Os maçons homenageados devem ostentar com altivez as suas medalhas para que os Aprendizes, os Companheiros e os novos Mestres o tenham como exemplo, solicitando-lhe contar a história do conjunto de suas obras, que somado as de outros Maçons “medalhados”, constituem a historia da Maçonaria.
A Maçonaria é o conjunto das ações de seus membros. É o somatório do que cada um dos seus membros é sem representá-los individualmente.
Os Maçons que receberam distinções e homenagens compreenderam o verdadeiro significado dos ensinamentos maçônicos e aplicaram-nos e por isso foram reconhecidos como tal. Há aqueles que criticam os que ostentam nas Lojas as suas muitas medalhas afirmando ironicamente: “eles andam arcados com o peso das medalhas”. Mas, vejamos: os condecorados por seu trabalho voluntário e dedicado têm como alternativa ostentar ou não as medalhas por merecido recebidas.
O pretendente a maçom é conhecido antes de ser convidado a participar da Ordem. A sua admissão é o reconhecimento pelos membros, da sua postura moral, da sua vontade de aperfeiçoamento pessoal e da sua capacidade econômica e financeira para sobreviver. Um conhecido jargão afirma: “Para a Maçonaria são escolhidos os “bons” nas mais diversas atividades humanas oferecendo-lhes a oportunidade de tornarem-se “melhores”.
Ao Companheiro Maçom, conhecedor de todas as ferramentas simbólicas, compete usá-las para construir.
Nos rituais maçônicos não há indicação de que as ferramentas simbólicas devam ser utilizadas para destruir. Se um projeto não atende aspiração pessoal de algum Membro, não quer dizer que não deva ser executado. Se há quem queira realizá-lo e que encontra quem queira auxiliá-lo, certamente o projeto atenderá aspirações de seus executantes. Neste caso, quem não concorda com o projeto, não deve atrapalhar ou impedir a sua execução, respeitando a diversidade e a individualidade das opiniões. Compete à assembleia da Loja a decisão final dos assuntos conflitantes, geralmente resolvidos com justiça, dentro da maior harmonia possível,
O Mestre é o conhecedor dos ensinamentos maçônicos e está apto a ensiná-los. O Mestre é o Companheiro que recebeu um diploma de professor, sendo-lhe transmitidas as Lendas Maçônicas que, como parábolas, serão o instrumento didático adotado para a difusão dos ensinamentos.
A máxima de São Francisco de Assis “é dando que se recebe” representa a essência da responsabilidade do Mestre. O ensinamento esotérico contido nesta máxima refere-se à Dualidade. Tudo o que entra deverá sair para abrir espaço para novas entradas. A capacidade de aprender é aumentada quando é ensinado o que se sabe. Só é “retido” o que é “doado”. O conhecimento fixa-se quando é ensinado. Tudo o que se lê nem sempre é retido na memória, mas uma vez ensinado, jamais será esquecido. Patrick Byrne, em seu livro “O Ouro dos Templários” (Editorial Estampa – Lisboa-2007-pg. 257), cita o ditado que capta a essência do conceito cabalístico: “Quando alguém se deixa penetrar pela luz, mas não a liberta, cria-se uma sombra”.
Recebendo sem distinções os intelectuais, cientistas, religiosos, livres pensadores, inventores e operários, jovens e idosos, para um convívio comum, a Maçonaria tornou-se a depositária de todo conhecimento científico e oculto produzido pelas civilizações em todos os tempos. Instituição de caráter universal, seu Quadro é composto por profissionais de todas as áreas da atividade humana, que colocam os seus conhecimentos à disposição da Humanidade. Esse conhecimento pode ser encontrado nas atividades das Lojas, seja apresentado individualmente por seus membros ou contido no simbolismo e alegorias de seus Graus e Ordens. Compete ao maçom desvendá-los e praticá-los em benefício de sua evolução pessoal e da Humanidade.
Autor: Ir∴ Edison Barsanti, 33º • M∴I∴
http://www.revistauniversomaconico.com.br/tempo-de-estudos/os-ensinamentos-maconicos/
16 de abril de 2012
Alquimia e a Maçonaria
ALQUIMIA E A MAÇONARIA
pelo Ven.Irmão Lucas Francisco GALDEANO
Podemos afirmar que o maçom tem contato com a Alquimia nos primeiros momentos em que, como candidato, tem contato com a Ordem. A Câmara de Reflexões indiscutivelmente é um legado alquimista, a sua "decoração" com os elementos água, enxofre e sal, que acrescida do mercúrio são substâncias que constituem a Prima Matéria da Alquimia. A Alquimia é estudada sob três aspectos diversos, suscetíveis de interpretações distintas, e que são: o cósmico, o humano e o terrestre. Elas são representadas pelas três propriedades alquímicas: enxofre, mercúrio e sal. Muitos autores afirmam que há três, sete, dez e doze procedimentos respectivamente, porém, todos concordam em que há apenas um único objetivo na Alquimia, que é a transmutação em ouro dos metais mais grosseiros. Porém, este é apenas um dos aspectos da Alquimia, o terrestre ou puramente material, pois, compreendemos logicamente que o mesmo processo seja executado nas entranhas da Terra. Contudo além desta interpretação, há na Alquimia um significado simbólico, psíquico e espiritual.
Como vimos o alquimista procura simbolicamente ouro, isto nada mais é do que o maçom procura, através da sua opus, transformar a pedra bruta em pedra polida, e que é o aprimoramento moral e espiritual do maçom. Enquanto o alquimista cabalista muitas vezes procura a realização do ouro material, o alquimista ocultista, desdenhando o ouro das minas, volta toda a sua atenção e concentra todos os seus esforços na Divina Trindade do homem que, quando, finalmente se fundem, formam apenas um.
Os planos espiritual, mental, psíquico e físico da existência humana são comparados, em Alquimia, aos quatro elementos: fogo, ar, água e terra, e cada um deles é suscetível de uma constituição tripla, a saber: fixa, variável e volúvel. Aqui temos também um outro elo entre a Maçonaria e a Alquimia, mas precisamente nas três viagens que o recipiendário é obrigado a fazer acrescido da prova da Terra que simbolicamente, é a Câmara de Reflexões, a que nos referimos' anteriormente.
A Maçonaria vê na prova do AR (primeira viagem com seus ruídos e trovões) a representação do segundo elemento primordial que com seus meteoros e contínuas flutuações é o emblema da vida, sujeito as contraditórias variações. Na Alquimia o AR é trabalhado através da operação sublimatio. Ela transforma o material em ar por meio de sua elevação e volatilização. O termo "sublimatio" vem do Latim Sublimis, que significa elevado. Isso indica que o aspecto essencial do Sublimatio é um processo de elevação por intermédio do qual uma substância inferior se traduz numa forma superior mediante um movimento ascendente.
Na Maçonaria a água é o oceano e este é um símbolo do povo, a cujos serviços dedicam-se os verdadeiros maçons. Os homens são as gotas do vasto oceano da humanidade, de que as nações são partes.
Na Alquimia a água é a Prima Matéria, idéia que os alquimistas herdaram dos pré-Sócrates. Pensam os alquimistas que uma substância não poderia ser transformada sem antes ter sido reduzida à Prima Matéria. A água é trabalhada através da operação Solutio, esta provoca o desaparecimento de uma forma e o surgimento de uma nova forma regenerada. No poema abaixo, escrito por Lao Tse, a Maçonaria fala a mesma linguagem que a Alquimia, quando tratam de água:
"O menor dos homens é como a água.
A água a todas as coisas beneficia
E com elas não compete.
Ocupa os (humildes) locais visto por todos com desdém
Nos quais se assemelha ao Tao
Em sua morada (o Sábio) ama a (humilde) terra
Em seu coração ama a profundidade
Em suas relações com os outros, ama a gentileza
Em suas palavras, ama a sinceridade
No governo ama a paz
No trabalho, ama a habilidade
Em suas ações ama a oportunidade
Porquanto não quere-la
Vê-se livre de reparos."
O quarto elemento, o fogo, também une os propósitos dos dois colégios. Para a Maçonaria o fogo cujas chamas sempre simbolizam aspiração, fervor e zelo deve lembrar ao iniciado que este deve aspirar a excelência e a verdadeira glória e trabalhar com dedicação nas causas empenhadas, principalmente as do povo, da pátria e da ordem.
Para o alquimista o fogo é tratado na operação calcinatio. Eis porque toda imagem que contém o fogo Livre queimando ou afetando substâncias se relaciona com a calcinatio. O fogo da calcinatio é um fogo purgador, embranquecedor. Atua sobre a matéria negra, a nigredo, tomando-a branca. Diz Basil Valentine: "Deves saber que isso (a calcinatio) é o único meio correto e legítimo de purificar nossa substância." Isso a vincula ao simbolismo do purgatório. A doutrina do purgatório é a versão teológica da calcinatio projetada na vida depois da morte.
Morte, um tema muito caro para os maçons e alquimistas. Na Maçonaria a morte é tratada de forma muito especial, na Lenda de Hiram que perpassa vários graus da Escada de Jacó. O maçom conhece muito bem estas palavras:... o pó volte a Terra e o espírito volte a Deus que o deu...
Para o alquimista a morte também é um processo, uma continuação que faz parte do trabalho da coagulatio. Esta pertence ao elemento Terra, e costuma ser seguida por outros processos, em geral pela mortificatio e pela putrefactio. Aquilo que se concretizou plenamente ora se acha sujeito à transformação. Tornou-se uma tribulação, que chama à transcendência. Eis como podemos entender as palavras do apóstolo Paulo ao vincular o corpo e a carne à morte: "Quem me libertará do corpo desta morte?... Porque, se vivemos na carne, morreremos; mas se por meio do espírito, mortificarmos os feitos do corpo, viveremos... Porque aquele que vive segundo a carne inclina-se para as coisas da carne. A inclinação da carne é a morte; mas a inclinação do espírito é a vida e paz”.
A identificação do corpo e da carne com a morte deve-se ao fato de que tudo aquilo que nasce no plano espaço-temporal deve submeter-se às limitações dessa existência, que incluem um fim a morte. Esse é o preço do ser real. Uma vez plenamente coagulado ou encarnado, o conteúdo torna-se sem vida, sem maiores possibilidades de crescimento. Emerson exprime essa idéia: "Somente a vida é beneficio, e não a ter vivido. A força cessa no instante do repouso; ela reside no momento da transição de um estado passado para um novo, na voragem do abismo, no arremesso contra o alvo. Eis um fato que o mundo abomina. O fato de a alma vir a ser porquanto isso degrada o passado, tornando todos os bens em pobreza, toda reputação em vergonha, confundindo o santo com o velhaco, varrendo Jesus e Judas para longe, sem distinção.” Realizada a plena coagulatio, vem a putrefactio. Porque o que semeia na sua carne da carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no espírito do espírito ceifará a vida eterna. Um texto alquímico trata do mesmo tema: o leão, o sol inferior pela carne se corrompe... Assim, o leão tem corrompida a natureza por meio da sua carne, que segue os ritmos da lua, e é eclipsada. Porque a lua é a sombra do sol, e com o corpo corruptíveis é consumida; e, por meio da destruição da lua, o leão é eclipsado com auxílio da umidade de mercúrio; o eclipse não obstante, é transmutado tomando-se útil e de melhor natureza, e ainda mais perfeito do que o primeiro.
Em vários graus da Maçonaria o crânio é uma peça importante tanto na representação do grau como na ornamentação do templo para o ritual do grau. Pois bem, na alquimia o crânio como momento mori é um emblema da operação da mortificatio. Ele produz reflexões a respeito da mortalidade pessoal de cada um e serve como pedra de toque para os valores falsos e verdadeiros. Refletir sobre a morte pode nos levar a encarar a vida sob perspectiva da eternidade e, desse modo, a negra cabeça da morte pode transformar-se em ouro. Com efeito, a origem e o crescimento da consciência parecem estar vinculados de maneira peculiar à experiência da morte. Talvez o primeiro par de opostos a penetrar na consciência em vias de despertar dos seres humanos primitivos tenha sido o contraste entre o vivo e o morto. E provável que somente a criatura mortal seja capaz de ter consciência. Nossa mortalidade é nossa fraqueza mais importante e derradeira. E essa fraqueza, segundo C. G. Jung, foi o elemento que colocou Jó em vantagem diante de IAHWEH.
Esta palavra é muito significativa em alguns graus da Escola Filosófica da Maçonaria (REAA). IAHWEH é o nome da Divindade expressa no Antigo Testamento do Livro Sagrado. Para o alquimista IAHWEH redime e purifica pelo fogo sagrado, daqueles que passaram pela calcinatio: "Não temas, porque eu te resgatei, eu te chamei pelo teu nome, és meu. Quando passares pelo mar, estarei contigo; quando passares pelos rios eles não te submergirão. Quando passares pelo fogo, a chama não te atingirá e não te queimarás. Pois eu sou IAHWEH, teu Deus, o Santo de Israel, teu Salvador.
O Juízo final pelo fogo corresponde à provação pelo que testa a pureza dos metais e lhes retira todas as impurezas. Há inúmeras passagens do Antigo Testamento que usam metáforas para descrever os testes que IAHWEH submete seu povo eleito. Por exemplo, IAHWEH diz: "Voltarei minha mão contra ti, purificarei as tuas escórias no cadinho, removerei todas as impurezas." (Isa., 1:24,25)
"E eis que te pus na fogueira como a prata, testando-te no cadinho da aflição. Por causa de mim mesmo e só por mim mesmo, agi - deveria meu nome ser profanado? Jamais darei minha glória a outro." (Isa.,48;10,11)
"Eu os levarei ao fogo, e os purificarei como se purifica a prata, e os testarei como se testa o ouro. Eles invocarão meu nome e eu escutarei, respondendo: Eis o meu povo; e todos dirão IAHWEH é meu Deus.” (Zacarias 13:9)
O fogo purifica e santifica a matéria bruta e corrompida, os maçons e alquimistas sabem disso, no entanto, o fogo da Senda Sinistra mata e regride a evolução que o ser procura na sua existência. Este fogo nada mais é do que a luxúria, a inveja e ira. Nesta categoria temos a ira que moveu Nabucodonosor, ao destruir o Templo de Salomão. Ele personifica o motivo do poder, a autoridade arbitrária do ego inflamado, que passa pela calcinatio quando suas pretensões irresistíveis são frustradas pela presença da autoridade transpessoal. Nabucodonosor corresponde ao rei alquímico, que serve de alimento ao lobo e depois é calcinado
Conclusão:
A Maçonaria e os maçons com as suas alegorias de construção, como ferramentas: trolha, esquadro, compasso, régua, maço, cinzel; materiais como tríplice argamassa, de forma alguma querem dar a entender que queiram construir algum prédio material - quando assim o querem contratam uma firma especializada - mas sim a construção de um Templo Espiritual à Divindade Maior, o Grande Arquiteto do Universo. É a procura do auto-conhecimento para purificar o ente de cada obreiro, e a partir daí construir a morada do Espírito Santo como falam os cristãos. Essa construção maçônica percorre vários patamares (Escada de Jacó) e à medida que o maçom vai galgando os seus degraus (os graus maçônicos) ele tem um compromisso com a Lei do Karma de estar mais santificado que no patamar anterior. Da mesma forma o alquimista no seu trabalho de manipulação das substâncias não quer dizer que ele queira conseguir ouro material. Alquimia é a ciência pela qual as coisas podem não ser decompostas e recompostas (como se faz em química), mas também sua natureza essencial pode ser transformada e elevada ao mais alto grau ou ser transmutada em outra.
A química trata apenas da matéria morta, enquanto a Alquimia emprega a vida como fator. Todas as coisas têm natureza tríplice, da qual sua forma material e objetiva é sua manifestação inferior. Assim é que, por exemplo, há ouro espiritual, imaterial; ouro astral etéreo, fluído e invisível, e ouro terrestre, sólido, material e visível. Os dois primeiros são, digamos assim, o espírito e a alma do último e, empregando os poderes espirituais da alma, podemos produzir mudanças nele, a fim de que se, tornem visíveis no estado objetivo.
Certas manifestações exteriores podem ajudar aos poderes da alma em sua operação. Porém, sem os segundos, as manipulações serão totalmente inúteis. Portanto, os procedimentos alquímicos podem ser utilizados com êxito unicamente por aquele que é o alquimista nato ou por educação. Sendo todas as coisas de natureza tríplice, a Alquimia também apresenta um aspecto triplo. No aspecto superior, ensina a regeneração do homem espiritual, a purificação da mente e da vontade, o enobrecimento de todas as faculdades anímicas. No aspecto mais inferior trata das substâncias físicas e, abandonando o reino da alma viva e desvenda matéria morta. Termina na química de nossos dias. A Alquimia é um exercício do poder mágico da livre vontade espiritual do homem e, por esta razão, pode ser praticada apenas por aqueles que renascem espiritualmente.
Por último, passarei a palavra final aos alquimistas, ao citar, in toto, seu texto mais sagrado. A Tábua da Esmeralda de Hermes. Via-se esse texto “como uma espécie de revelação sobrenatural aos filhos de Hermes, feita pelo patrono e sua Divina Arte”. De acordo com a lenda, a tábua da Esmeralda foi encontrada no túmulo de Hermes Trismegistus, por Alexandre o Grande, ou, em outra versão, por Sara, a esposa de Abraão. A princípio, só se conhecia o texto em latim, mas, em 1923, Holmyard descobriu uma versão árabe. É provável que um texto anterior tenha sido escrito em grego e, segundo Jung tinha origem alexandrina. Os alquimistas o tratavam com veneração ímpar, gravando suas afirmativas nas paredes do laboratório e citando-o constantemente em seus trabalhos. Trata-se do epítome críptico da opus alquímica, uma receita para segunda criação do mundo, o unus mundus
A TÁBUA DA ESMERALDA DE HERMES
1. Verdadeiro, sem enganos, certo e digníssimo de crédito.
2. Aquilo que está embaixo é igual àquilo que está em cima, e àquilo que está em cima é igual àquilo que está em baixo, para realizar os milagres de uma só coisa.
3. E, assim como todas as coisas se originam de uma só, pela mediação dessa coisa, assim também todas as coisas vieram dessa coisa, por meio da adaptação.
4. Seu pai é o sol; sua mãe, a lua; o vento a carregou em seu ventre; sua ama é a terra.
5. Eis o pai de tudo, a complementação de todo o mundo.
6. Sua força é completa se for voltada para dentro (ou na direção) da terra.
7. Separa a terra do fogo, o sutil do denso, com delicadeza e com grande ingenuidade.
8. Ela ascendeu da terra para o céu, e desce outra vez para a terra, e recebe o poder do que está em cima e do que está embaixo. E, assim, terás a glória de todo o mundo. Desse modo, toda a treva fugirá de ti.
9. Eis o forte poder da força absoluta; porque ela vence toda coisa sutil e penetra todo sólido.
10. E assim o mundo foi criado.
11. Daqui as prodigiosas adaptações, à feição das quais ela é.
12. E assim sou chamado HERMES TRISMEGISTUS, tendo as três partes da filosofia de todo o mundo.
13. Aquilo que eu disse acerca da operação do sol está terminado.
Divagações sobre o Iniciado.
Interessante que muitas vezes tentamos enterrar aquilo que somos em vez de entender como chegamos a determinado ponto, do que somos feitos e entender para onde vamos.
Com certeza desenterrar os demônios e enfrenta-los não é tarefa fácil. Assim vejo toda e qualquer iniciação.
Ela nos aterroriza, pois nos coloca frente a frente com nossos medos e limitações, expõem nossas fraquezas e nos torna mais humildes pois entendemos que por mais distinção que criemos, somos em essência todos iguais.
Não sendo o iniciado melhor que qualquer outra pessoa sabe que o calar é mais eloquente que a tola discussão e palavras vazias de sentido e proposito, então ele trabalha. Trabalha em si desmontando peça por peça sua personalidade, seus credos suas convicções. Analisa cada parte e o todo, destrói e constrói, cria, aniquila e renasce.
Ele precisa terminar sua tarefa, pois uma vez iniciada esta jornada ela é sem volta.
Não se pode espiar pelas frestas do portal que se põem em nossa frente sem ter que pagar por isso, e só os destemidos apos se depararem com a doce loucura de estar aqui e estar lá continuarão a marcha. Tolos. Somos todos tolos, todos os que ingenuamente buscam pelos caminhos desconhecidos a chama com a qual poderão acender sua própria lâmpada. Temos a faísca, mas não temos o fogo e só os tolos buscam este fogo para serem consumidos por ele.
Não se pode tentar entender algo sem fazer parte daquilo que se observa. O espectador sempre será um expectador e um iniciado nunca será um pacato ouvinte e um manso cordeiro. Ele busca o desafio, pois não existe merecimento na inercia e a roda precisa girar. Torres precisam ser conquistadas, exércitos derrotados e novas terras precisam ser conhecidos. Não se pode sentir o calor do sol por uma simples imagem, é preciso estar lá.
São dois os campos de batalha, um abaixo de seus olhos para lhe lembrar humildade, e outro acima de ti para lhe lembrar que deves sempre buscar mais e mais acima.
Um campo de batalha dentro de seu peito, em seu coração, onde as emoções precisam ser controladas, entendidas e medidas.
Outro campo de batalha esta em sua cabeça no seu discernimento, na sabedoria, no conhecimento e na imaginação que o fara viajar por paragens nunca antes vistas.
Os dois campos devem ser conquistados ao mesmo tempo, pois não se pode equilibrar uma balança somente por um de seus pratos nem é possível ser sem conhecer, entender e experimentar.
Eu fui eu sou e eu serei.
Eu erro, eu errei e errarei.
Eu busco e buscando continuarei.
Cristiano S. G. de Castro.
Com certeza desenterrar os demônios e enfrenta-los não é tarefa fácil. Assim vejo toda e qualquer iniciação.
Ela nos aterroriza, pois nos coloca frente a frente com nossos medos e limitações, expõem nossas fraquezas e nos torna mais humildes pois entendemos que por mais distinção que criemos, somos em essência todos iguais.
Não sendo o iniciado melhor que qualquer outra pessoa sabe que o calar é mais eloquente que a tola discussão e palavras vazias de sentido e proposito, então ele trabalha. Trabalha em si desmontando peça por peça sua personalidade, seus credos suas convicções. Analisa cada parte e o todo, destrói e constrói, cria, aniquila e renasce.
Ele precisa terminar sua tarefa, pois uma vez iniciada esta jornada ela é sem volta.
Não se pode espiar pelas frestas do portal que se põem em nossa frente sem ter que pagar por isso, e só os destemidos apos se depararem com a doce loucura de estar aqui e estar lá continuarão a marcha. Tolos. Somos todos tolos, todos os que ingenuamente buscam pelos caminhos desconhecidos a chama com a qual poderão acender sua própria lâmpada. Temos a faísca, mas não temos o fogo e só os tolos buscam este fogo para serem consumidos por ele.
Não se pode tentar entender algo sem fazer parte daquilo que se observa. O espectador sempre será um expectador e um iniciado nunca será um pacato ouvinte e um manso cordeiro. Ele busca o desafio, pois não existe merecimento na inercia e a roda precisa girar. Torres precisam ser conquistadas, exércitos derrotados e novas terras precisam ser conhecidos. Não se pode sentir o calor do sol por uma simples imagem, é preciso estar lá.
São dois os campos de batalha, um abaixo de seus olhos para lhe lembrar humildade, e outro acima de ti para lhe lembrar que deves sempre buscar mais e mais acima.
Um campo de batalha dentro de seu peito, em seu coração, onde as emoções precisam ser controladas, entendidas e medidas.
Outro campo de batalha esta em sua cabeça no seu discernimento, na sabedoria, no conhecimento e na imaginação que o fara viajar por paragens nunca antes vistas.
Os dois campos devem ser conquistados ao mesmo tempo, pois não se pode equilibrar uma balança somente por um de seus pratos nem é possível ser sem conhecer, entender e experimentar.
Eu fui eu sou e eu serei.
Eu erro, eu errei e errarei.
Eu busco e buscando continuarei.
Cristiano S. G. de Castro.
21 de novembro de 2011
RENE GUENON
MONOGRAFIAS MAÇÔNICASpelo Ven.Irmão WILLIAM ALMEIDA DE CARVALHO 33RENE GUENON : VIDA E OBRA |
|
Guénon foi um prodígio precoce. Cedo dominava o grego, latim, inglês, italiano,
alemão, espanhol, sânscrito, hebraico, árabe e mais tarde, o chinês, mantendo
conversação com seus interlocutores europeus e orientais em suas próprias
línguas, para desconcerto de muitos deles, ao constatarem um francês dominar
com maestria a língua e o espírito de civilizações distantes.
O mais decisivo
em sua formação, sem dúvida, foram os dados doutrinais obtidos pela oralidade
diretamente de representantes do hinduísmo (Escola de Shankara), do Islã
(tariqah do Sheikh Elish El Kebir, da linha Alkbariana) e do Taoísmo (por
intermédio do filho espiritual de Tong Sou Luat, eminente mestre Taoísta).
Guénon
desmascarou terminantemente dezenas de impostores, desde os grosseiros aos mais
pretensamente refinados, angariando para si, de um lado, a grata surpresa e o
agradecimento dos que buscavam o oriente autêntico e, de outro, o ódio e as
perseguições de uma maioria, surpreendida em suas falsas bases e artimanhas.
O mais eminente
reconhecimento de valor partiu de autoridades orientais. Marco Pallis relata a
perfeita ortodoxia de suas exposições, constatada por lamas tibetanos; Ramana
Maharshi denominou Guénon como "The Great Sufi" ; os verdadeiros
mestres taoístas, mais de uma vez, designaram Guénon como o único ocidental nos
últimos séculos a conseguir a apreensão e posterior transmissão do verdadeiro
espírito do Taoísmo.
René (Jean-Marie-Joseph) Guénon nasceu em 15 de novembro de 1886 em Blois,
França. Filho único do qüinquagenário e arquiteto Jean-Baptiste Guénon e Anna
Jolly. De saúde muito frágil para ir à escola, aprendeu as
primeiras letras com sua tia, sua preceptora até a idade de 12 anos. Ao fazer
os estudos secundários, sua saúde ainda inspirava cuidados extremos. Já nessa
época, começou a estudar Filosofia com um especialista dos pré-socráticos –
Albert Leclère – e com o cônego Gombault, um tomista exaltado e interessado em
fenômenos sobrenaturais. Ainda em 1905, fez uma peregrinação com sua tia ao
santuário de Lurdes. Após obter bacharelado em filosofia, Guénon foi recebido
na Escola Politécnica e na Escola Normal Superior em Paris. Encetou estudos da Matemática,
abandona-os em 1906. Ainda nesse ano, começou a dirigir sua atenção para o
ocultismo. Introduziu-se na Escola Hermética dirigida por Papus, pseudônimo do
Dr. Encausse. Recebido, ainda, foi na ordem Martinista e em diversas
organizações maçônico-ocultistas (Loja Humanidade). Começou, então, o esboço de
um romance “A Fronteira do Outro Mundo”.
Em
1908, ao ser nomeado secretário do Congresso Espiritualista e Maçônico,
declinou do cargo após o discurso de abertura de Papus. Foi o começo de sua divergência
e ruptura com Papus e outros ocultistas em geral por ele qualificados de
‘materialistas’. Ingressou, em seguida, na Loja Tebas praticante do REAA, da
Grande Loja da França, frequentando-a até a Primeira Guerra Mundial. Nessa
época, estreitou contatos com Albert de Pouvouville, iniciado taoísta; Léon
Champrenaud (Abdul-Haqq), iniciado sufista; Théodor Reuss, grão-mestre da OTO e
Fabre des Essarts, patriarca da Igreja gnóstica da França.
Em 1909, teve início a publicação de seus primeiros
trabalhos escritos. O primeiro foi um relatório da Escola Hermética na Initiation de Papus; o segundo uma
polêmica na revista maçônica Acácia a
propósito do rito de Memphis e Misraim e, o terceiro, uma reflexão na France Chrétienne Antimaçonnique sob o
pseudônimo Le Sphinx. Ao mesmo
tempo, tomou a frente de uma enigmática Ordem do Templo renovada que o levou a
ser excluído da Ordem Martinista e das organizações controladas por Papus. No
final de 1909, ingressando na Igreja Gnóstica de Alexandria, foi sagrado bispo
gnóstico sob o nome de Palingenius. Fundou, ainda com esse nome, a revista La
Gnose – que circulou até 1912 – na qual foi publicado seu primeiro texto “O
Demiurgo”, uma importante parte do “Simbolismo da Cruz”, e a parte essencial do
“O Homem e seu Devenir segundo o Vedanta” e “Um Lado Pouco Conhecido da Obra de
Dante”.
Em
1912, foi iniciado no sufismo sob o nome de Sheikh Abdel Wàhed Yahia.
Catolicamente, com Berthe Loury, casou-se.
Em
1913, Abel Clarin de la Rive, diretor do jornal La France anti-maçonnique, abriu colunas para que Guénon expusesse
suas idéias sobre a Maçonaria e ‘o poder oculto’. No jornal, Guénon encontrou
Olivier de Frémont, católico anti-semita e anti-maçom, estabelecendo,
conjuntamente com L. A. Chabonneau, uma intensa reflexão sobre a questão da
Tradição. Desenvolveu com Charles Nicoullaud e Gustave Bord, colaboradores da
Revista Internacional das Sociedades Secretas (RISS), uma polêmica em torno da
questão dos “Superiores Desconhecidos”. Seu amigo, como ele, filiado à Igreja
Gnóstica – Pierre German – recobrou a fé católica em Lurdes e se inscreveram,
tal qual o jovem tomista Noèle Maurice-Denis, no curso de Filosofia das
Ciências do Prof. Milhaud. Noèle introduziu Guénon no círculo de Jacques
Maritain e do Pe. Emile Peillaube S.J. Guénon obteve diploma de estudos
superiores em Filosofia com o Mémoire
intitulado “Exame das Idéias de Leibniz sobre o Significado do Cálculo
Infinitesimal”.
Em
1919, Gonzague Truc, diretor das Edições Bossard, promoveu a introdução dele na Revue Philosophique. Em 1921, Sylvain Lévi recusou conceder-lhe o
doutorado em Filosofia pelo seu trabalho “A Introdução Geral ao Estudo das
Doutrinas Hindus”. Essa obra, contudo, seria publicada no mesmo ano. Houve a
publicação, ainda, de “Teosofismo. História de
uma Pseudoreligião”, pela Nouvelle
Librairie Nationale, numa coleção dirigida por Jacques Maritain.
Em 1922, estabeleceu amizade com
Paul Chacornac, editor da revista Le
Voile d’Isis, que perderá pouco a pouco seu caráter ocultista e que, mais
tarde, se transformará nos Études
Traditionnelles. Ainda nesse ano, teve publicado “O Erro Espírita”.
Seu amigo Frans Vreede, conseguiu-lhe um serviço parcial na biblioteca do
Centro de Estudos Neerlandeses da Universidade de Paris. Em 1924, como
consequência do livro de F. Ossendowski – Bestas, Homens e Deuses – formou-se uma mesa redonda,
organizada pela Les Nouvelles Littéraires,
sobre o tema de um centro iniciático sagrado em que pontificaram o neo-tomista
Rei do Mundo Jacques Maritain; o orientalista René Grousset; o editor Frédéric
Lefèvre; o filósofo Ferdiand Ossendowski e o hinduísta René Guénon. Surgiu
através da Payot, o livro “Oriente e Ocidente”, no qual um capítulo consagrava-se às condições da reconstituição
de uma verdadeira elite.
Através
da Regnabit, revista universal do
Sagrado Coração do Pe. Félix Anizan e de L. A. Charbonneau-Lassay, descobriu
Guénon, bem próximo dele, a sobrevivência de um grupo hermetista cristão. O
editor Charles Bosse publicou “O Esoterismo de Dante”, tratando em um dos
capítulos de uma sociedade esotérico-religiosa: a Fede Santa. Teve, ainda, seu livro, editado pela Brossard, “O Homen
e Seu Devenir Segundo o Vedanta”. Fez-se pronunciar, na Sorbone, uma
conferência sobre “A Metafísica Oriental”.
Em
1926, publicou na Regnabit o seu
“Terra Santa e Coração do Mundo”. Tornou-se
colaborador de diversas revistas: Voile
d’Isis, Vers l’Unité (órgão da nova direita), La Revue Bleu, Vient de
Paraître (de inspiração católica), Au
Christ Roi etc.
O ano de 1927 viu aparecer dois de
seus livros: “O Rei do Mundo” e “A Crise do Mundo Moderno”. Abondonando a
revista Regnabit, retomou a polêmica
com a Revista Internacional das Sociedades Secretas. No ano seguinte, assistiu
à morte de sua esposa e, alguns meses depois, de sua tia, que tanta influência
exerceu na sua vida. Essas duas mulheres foram substituídas, em 1929, pela viúva
riquíssima – Madame Dina, conhecida num serão na Livraria Chacornac. Nesse
mesmo ano, publicou pela Vrin “Autoridade Espiritual e Poder Temporal” e uma
plaquete sobre “São Bernardo”.
Viajou
para o Cairo em 1930, em companhia de Mme. Dina à procura de textos sufis.
Começou a freqüentar, também, a Universidade de El Azhar. À época, assistiu-se
a uma série de artigos na Voile d’Isis
tratando do esoterismo islâmico. Adotou o nome árabe de Sheikh Abdel Wahêd
Yahia travando contato com círculos esotéricos no Cairo. Casou-se, em 1934, com
Fátima Hanem, filha caçula do xeique Mohammed Ibrahim, indo morar numa espécie
de subúrbio afavelado chamado Doki, a oeste do Cairo, em um imóvel que lhe foi
doado pelo seu admirador John Levy. Durante a guerra, manteve intensa
correspondência com Julius Evola e diversos maçons franceses. Os ‘guenonianos’
na França, fundaram a Loja da Grande Tríade do REAA na Grande Loja de França.
Em
1944, nasceu sua primeira filha Khadija; em 46, instalou-se definitivamente com
sua família numa casa no centro do Cairo; em 47, nasceu sua segunda filha
Leila; e, em 48, obteve nacionalidade egípcia, mas sua saúde começou a dar
sinais inquietantes; em 49, viu nascer seu primeiro filho homem Ahmed (o
segundo – Abdel Wahêd -, nascerá após sua morte em 1951).
No
ano de 1950, sua saúde estava seriamente abalada. Sua morte ocorreu em 7 de janeiro de 1951 às 23 horas. Suas
últimas palabras foram a invocação do nome de Alá, o ‘nafass khalass’ ou seja,
‘a alma se vai’, e manifestou o o último
desejo para sua mulher de que o seu gabinete de trabalho fosse mantido intacto.
As orações fúnebres foram executadas na mesquita Seyidna-Hussein e foi
enterrado no túmulo da família Ibrahim.
Cronologia de suas Obras
a)
Obras em vida
1909 –
La Frontière de l’Autre Monde (A
Fronteira do Outro Mundo).
1921 –
Introduction générale à l’étude des
doctrines hindoues (Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus).
1921 –
Le Theosophisme, histoire d’une
pseudo-religion (O Teosofismo, História de uma Pseudo-Religião).
1923 –
L’Erreur spirite (Erro do
Espiritismo).
1924 –
Orient et Occident (Oriente e
Ocidente).
1925 –
L’Homme et son devenir selon le Vêdânta (O
Homem e seu Devenir segundo o Vedanta).
1925 –
L’ésotérisme de Dante (O Esoterismo
de Dante).
1927 –
Le roi du monde (O Rei do Mundo).
1927 –
La crise du monde moderne (A Crise do
Mundo Moderno).
1929 –
Autorité spirituelle et pouvoir temporel (Autoridade
Espiritual e Poder Temporal).
1929 –
Saint Bernard (São Bernardo).
1931 –
Le Symbolisme de la Croix (O
Simbolismo da Cruz).
1932 –
Les états multiple de l’être (Os
Estados Múltiplos do Ser).
1939 –
La Métaphysique orientale (A
Metafísica Oriental).
1945 – Le règne de la quantité et les signes des
temps (O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos).
1946 –
Les principes des calcul infinitésimal (O
Princípios do Cálculo Infinitesimal).
1946 –
La Grande Triade (A Grande Tríade).
1946 –
Aperçus sur l’Initiation (Considerações
sobre a Iniciação)
b)
Obras Póstumas
1952 -
Initiation et Réalisation spirituelle
(Iniciação e Realização Espiritual), Paris,
Éditions traditionnelles, avant-propos de Jean Reyor.
1954 -
Aperçus sur l’ésotérisme chrétien,(Considerações
sobre o Esoterismo Cristão) Paris,
Éditions traditionnelles, avant- propos de Jean Reyor.
1962 -
Symboles fondamentaux de la science
sacrée (Símbolos Fundamentais da Ciência Sagrada), Paris, Gallimard, N.R.F. "Tradition", introduction de
Michel Vâlsan.
1964 Études sur la Franc-Maçonnerie et le
Compagnonnage (Estudos sobre a Franco-Maçonaria e a Compagnonnage) , 2 vol.
1968 -
Études sur l’hindouisme (Estudos
sobre o Hinduísmo), Paris, Éditions
traditionnelles.
1970 -
Formes traditionnelles et cycles
cosmiques (Formas Tradicionais e Ciclos Cósmicos), Paris, Gallimard, N.R.F., avant-propos de Roger Maridort.
1973 –
Comptes Rendues (Resenha), de artigos
surgidos nas revistas Le Voile d’Isis e Études Traditionnelles.
1973 -
Aperçus sur l’ésotérisme islamique et le
taoïsme (Considerações sobre o Esoterismo Islâmico e o Taoísmo), Paris,
Gallimard, N.R.F., Les Essais, avant-propos de Roger Maridort. Resenhas.
1976 –
Mélanges (Misturas).
1976 –
Études sur l’Hindouisme (Estudos
sobre o Hinduísmo).
|
O Alfabeto Maçônico
O Alfabeto Maçónico
Terça, 10 Março 2009
O sistema de codificação mono alfabética em tempos utilizado pela Maçonaria e comummente conhecido como Alfabeto Maçónico ("Pig Pen"), é geralmente atribuído ao místico e alquimista alemão Heinrich Cornelius Agrippa de Nettelsheim, que...
Terça, 10 Março 2009
O sistema de codificação mono alfabética em tempos utilizado pela Maçonaria e comummente conhecido como Alfabeto Maçónico ("Pig Pen"), é geralmente atribuído ao místico e alquimista alemão Heinrich Cornelius Agrippa de Nettelsheim, que...
O Manuscrito Halliwell ou Poema Regius
O Manuscrito Halliwell ou Poema Regius II
Sexta, 06 Março 2009
Aqui começam os Estatutos da Arte da Geometria segundo Euclides Aquele que quiser ler e pesquisar Pode encontrar, contada em um livro antigo, A história de grandes senhores e belas damas Que tinham um grande número de filhos muito...
Sexta, 06 Março 2009
Aqui começam os Estatutos da Arte da Geometria segundo Euclides Aquele que quiser ler e pesquisar Pode encontrar, contada em um livro antigo, A história de grandes senhores e belas damas Que tinham um grande número de filhos muito...
12 de novembro de 2011
19 de julho de 2011
Prince Hall - A Maçonaria Desconhecida
pelo Ven.Irmão WILLIAM ALMEIDA DE CARVALHO 33
PRINCE HALL: UMA MAÇONARIA DESCONHECIDA
I - INTRODUÇÃO
A idéia de fazer um trabalho sobre a maçonaria Prince Hall, ou seja a maçonaria dos negros dos EEUU, tem por objetivo informar à comunidade maçônica brasileira sobre uma maçonaria pujante que por longos anos tem sido escamoteada, em termos de informação, ao mundo maçônico brasileiro.
Se o Brasil se propõe a ser uma potência maçônica deve ter o cuidado de se informar sobre o que se passa no resto do mundo e parar de repetir acriticamente o que lhe é ofertado pelos sistemas de divulgação maçônicos internacionais.
O presente trabalho busca trazer à tona a figura histórica e a legenda do primeiro maçom negro dos Estados Unidos, e talvez do Hemisfério Ocidental, chamado Prince Hall, que deu origem à maçonaria dos negros norte-americanos.
Busca, a seguir, relatar as dificuldades da Obediência Prince Hall nos Estado Unidos e a tentativa de formar uma Grande Loja Nacional Prince Hall.
Relata o que denominei de pérolas maçônicas, ou seja as instruções normativas da maçonaria branca em negar reconhecimento à sua congênere negra, num bestialógico digno dos tempos mais obscurantistas da história universal.
Termina propondo um repto para que se estude mais a fundo este importante ramo da maçonaria universal, visto que o Brasil, pela sua população negra não pode viver só da versão do homem branco. Concomitantemente, busca extrair lições estratégicas sobre o que se passa no mundo da alta política.
Como surgiu a idéia de escrever algo sobre a maçonaria Prince Hall? Na minha última viagem a Nova Iorque comprei um pequeno livro sobre a maçonaria Prince Hall[1][1] que li com grande prazer, pois, no Brasil, sempre que desejei informar-me sobre a maçonaria negra nos Estados Unidos, encontrava uma barreira devido à inexistência de bibliografia apropriada.
O autor, um militar negro chamado Joseph A.Walkes, tornou-se mestre maçom em 1965 na Loja Cecil A.Ellis nº 110, na base militar norte-americana de Karlrude, na Alemanha Ocidental, que trabalhava sob a jurisdição da Grande Loja Prince Hall de Maryland. É, ainda, membro honorário da Loja Militar da Zona do Canal nº 174 no canal do Panamá. Atualmente, pertence aos quadros da Loja Rei Salomão nº 15 de Forte Leonard Wood no Estado de Missouri. Foi editor da revista Masonic Light e, atualmente, edita a revista News Quaterly do Supremo Conselho Unido 33º da Jurisdição Sul (PHA) nos Estados Unidos.
Com este Ir\ negro, informei-me sobre o básico, da ótica negra evidentemente, da maçonaria Prince Hall nos Estados Unidos. O presente trabalho segue, em linhas gerais, as pegadas de Walkes. Aprendi, por exemplo, que ao lado do tronco da maçonaria branca, que ele chama de maçonaria caucasiana, existe um frondoso galho, chamado Prince Hall. Este galho e este tronco estão em constante estado de guerra, surda ou aberta, até os dias de hoje.
Procurei distinguir o fato histórico real da lenda vigente. E, aqui, convém salientar o livro clássico de Grimshaw[2][2] que, se por um lado foi de importância fundamental em trazer à tona a legenda da figura seminal de Prince Hall, dando uma consciência de luta aos negros maçons norte-americanos, por outro lado, criou uma série de contos de fada sobre o mesmo Prince Hall, dificultando, e muito, a moderna historiografia. Sempre que usar, neste trabalho, a assertiva a tradição afirma tal coisa, estarei me referindo à versão de Grimshaw.
Neste trabalho, procurei seguir as pegadas dos historiadores clássicos e modernos que se debruçaram sobre a maçonaria Prince Hall, tais como o aludido Grimshaw, Davis, Walkes, Sherman, Wesley, etc.
II - A HISTÓRIA E A LENDA DE PRINCE HALL
Deve-se destacar, na figura de Prince Hall, a parte real, mas menos romântica, resgatada pela moderna pesquisa historiográfica e a lenda, devida, na maioria das vezes, a Grimshaw e que vem sendo alimentada pelo povo maçônico afro-americano. A moderna historiografia estima que Prince Hall nasceu em 1735 em lugar desconhecido. Alguns especulam que teria nascido em Barbados nas Índias Ocidentais, outros que teria sido na África enquanto uma minoria chega a afirmar que o seu local de nascimento seria os Estados Unidos. Documentos analisados mostram que teria exercido várias profissões, tais como: trabalhador braçal, artesão de roupa de couro e fornecedor de alimentos. Outros documentos apresentam-no como líder e eleitor numa pequena comunidade negra em Boston.
A versão tradicional, muito aceita mas de pouca ajuda para a pesquisa científica, afirma que Prince Hall nasceu em Bridgetown, Barbados, nas Índias Ocidentais em 1748, filho de Thomas Hall, um inglês, mercador de couro que teria como esposa uma mulher negra livre, de descendência francesa. Teria vindo para a Nova Inglaterra durante a metade do século XVIII, estabelecendo-se em Boston, na colônia de Massachusetts, onde teria se tornado pastor da Igreja Metodista.
A versão tradicional ainda afirma que Prince Hall teria pertencido às fileiras do Exército Revolucionário e lutado na guerra de independência norte-americana.
Um ponto controverso tem sido a versão de que Prince Hall tenha sido escravo ou não. Sherman afirma que tive a fortuna de descobrir, na Biblioteca Athenaeum de Boston, uma cópia do documento de alforria, provando que Prince Hall tinha, originalmente, sido escravo na família de um negociante em roupa de couro de Boston chamado William Hall que o alforriou em 1770.[3][3] Certos historiadores afro-americanos rejeitam alguns documentos que tentam demostrar ter ele sido escravo da família Hall, como se, em sendo isto verdade, teria sido uma desonra para a figura de Prince Hall. Aqui, convém lembrar o dizer da carta de Mahatma Gandhi ao Ir.´. W.E.B. Dubois em 1929: Não deixem os 12 milhões de negros [norte-americanos] se envergonharem pelo fato de serem descendentes de escravos. Não há desonra em ter sido escravo. Há desonra em ter sido proprietário de escravos.[4][4] A maçonaria Prince Hall nunca negou iniciação a qualquer ex-escravo desde que preenchesse os requisitos mínimos exigidos pela Ordem. A Grande Loja Unida da Inglaterra, após a abolição da escravidão nas Índias Ocidentais pelo Parlamento Britânico em 1º de setembro de 1847, mudou a expressão nascido livre para homem livre como requisito para ingresso nas suas lojas.
A tradição afirma que Prince Hall teria sido iniciado em 6 de março de 1775. E aqui existe uma controvérsia entre a Loja nº 441 e a Loja Africana , sendo que ambas estariam na gênese da maçonaria Prince Hall, com as implicações do reconhecimento pela Grande Loja Unida da Inglaterra e o problema de haver duas Obediências em um mesmo território. O historiador Jeremy Belknap afirma que tendo uma vez mencionado esta pessoa (Prince Hall), tenho a informar que ele foi um grão-mestre de uma loja de maçons livres, composta na sua totalidade de pretos e conhecida pelo nome de Loja Africana. Isto teria acontecido em 1775, quando esta cidade foi tomada pelas tropas britânicas, possibilitando a montagem de uma loja e ainiciação de um bom número de negros. Após o estabelecimento da paz, enviou-se a Londres um pedido de reconhecimento, obtendo-se uma carta timbrada pelo duque de Cumberland e assinada pelo conde de Effingham.[5][5]
Nelson King, editor da revista Philalethes, afirma que em 29 de setembro de 1784 uma carta de reconhecimento (warrant) foi outorgada pela primeira Grande Loja da Inglaterra para 15 homens em Boston, Massachusetts (inclusive o Ir\Hall, cujo primeiro nome era Prince), formando a Loja Africana nº 459 no registro inglês. A Loja Africana contribuiu com o Fundo de Caridade inglês até 1797 e permaneceu correspondendo-se com o Grande Secretário até início do século XIX. Os livros de registro da Grande Loja, para tal período, entretanto, são incompletos e não é impossível que a correspondência, entre ambos os lados, apareça como tendo sido ignorada. Após 1802, o contato foi perdido, devido, em grande parte, à interrupção que as guerras napoleônicas causaram sobre os transportes e as comunicações com a América do Norte. Em 1797, a Loja Africana, contrariamente aos termos da carta de reconhecimento e às Constituições de Anderson, às quais estava vinculada, deu autorização a dois grupos de homens para se reunirem como Lojas: i) a Loja Africana nº 459B em Filadélfia na Pensilvânia e ii) a Loja Hiram (sem número) em Providence, Rhode Island. Autorizações continuaram a ser dadas para outras lojas a partir de 1808.
Após a união das duas Grandes Lojas inglesas - antigos e modernos - em 1813 a fusão dos livros de registro omitiu a Loja Africana (assim como muitas outras lojas na Inglaterra e além mar) deixando de haver contato por longos anos. A Loja Africana, contudo, não foi formalmente extinta.[6][6]
Gould, em toda sua monumental obra, não chega a citar a figura de Prince Hall, mas num quadro em que lista as lojas nos EEUU reconhecidas pela Grande Loja da Inglaterra entre 1733 e 1789 cita a African Lodge de Massachussets com a data de 1784-86.[7][7]
Outro historiador chega a afirmar que Prince Hall teria sido iniciado numa loja militar, a Loja nº 441, sob a jurisdição da Grande Loja da Irlanda, ligada a um dos regimentos do exército do General Gage e cujo Venerável Mestre era o Ir.´. J.B.Watt.[8][8] Esta Loja volante existiu na vizinhança de Boston, estabelecendo-se futuramente em Nova Iorque e participou na formação, segundo a versão da maçonaria Prince Hall, da Primeira Grande Loja Caucasiana. Com a remoção da Loja para Nova Iorque, supõe-se que aquele Ir\J.B.Watt tenha dado uma permissão (se escrita, o documento perdeu-se; talvez oral, para que Prince Hall continuasse a funcionar em Boston). Daí talvez a gênese da Loja Africana. O que se especula é que essa permissão daria a Prince o direito de fazer reunião e de enterrar seus mortos, quando necessário. As atas da Loja Africana deixam muito a desejar sobre o que teria acontecido após a partida dos ingleses, sendo que este fato concorre para que a maçonaria branca marginalize a nascente maçonaria Prince Hall. Na época, Prince Hall mandou uma petição ao Grande Mestre Provincial Joseph Warren, pedindo reconhecimento. Entretanto, Warren foi morto na batalha de Bunker Hill antes de poder responder. Convém salientar que, com a morte de Warren, a jurisdição de Massachusetts abateu colunas e não havia autoridade maçônica na região. Em seguida buscou conseguir uma autorização legal e regular que substituísse a precária permissão de Watt. Primeiramente, tentou-se o Grande Oriente de França mas o seu intento foi infrutífero. Procurou então contatar a Grande Loja de Londres (modernos) através de duas cartas dirigidas ao Ir\William M. Moody em Londres. Desta vez obteve sucesso, conseguindo finalmente o warrant em 20 de setembro de 1784 para a African Lodge nº 459. Essa autorização chegou às mãos de Prince em 29 de abril de 1787 e foi noticiada pelos jornais locais. É um documento de importância vital para a maçonaria Prince Hall, pois é a prova inconteste para fugir da irregularidade que a ela é imputada pela maçonaria branca. Walkes chega a afirmar que a carta permaneceu nas mãos da Prince Hall Grand Lodge of Massachussets. Em 1869, foi chamuscada num incêndio, sendo, contudo, salva pela ação do P.G.M. Kendall que recuperou o documento. Existe um grande número de maçons Prince Hall que acreditam ter sido o incêndio uma tentativa de a maçonaria caucasiana destruir o mais valioso de todos os documentos da maçonaria Prince Hall. Enquanto esta crença não pode ser provada, o fato alegado mostra a freqüente relação tensa entre a fraternidade Prince Hall e a sua contraparte caucasiana. Mostra também a conexão emocional entre a América Negra e Branca.[9][9]
É preciso ter em mente o status colonial do negro norte-americano na época da independência. Não possuíam educação formal, além do mais sofriam restrição legal para adquiri-la e os códigos dos negros legais impediam reuniões ou ajuntamentos com mais de três individuos da raça negra. Os historiadores negros afirmam que os negros estavam na América Colonial mas não eram da América. Eram súditos coloniais dos súditos coloniais da Inglaterra. Não estavam sendo explorados por George III, mas sim por George Washington, pelos maçons e pelos donos de escravos. Os Pais Brancos Fundadores não eram os Pais Negros Fundadores, pois os homens negros viviam uma diferente Declaração de Independência, uma Revolução diferente numa América diferente. A revista maçônica negra - Phylaxis Magazine - editada em Boston comenta em seus editoriais que houve e tem sempre havido duas Américas, uma Branca e outra Negra. Defini-las juntas seria impossível. Medir a maçonaria de cada uma em conjunto, também é praticamente impossível, pois a convenção constitucional branca não foi a convenção constitucional negra, o começo branco não foi o começo negro.
Prince Hall demonstrou a sua combatividade em diversas ocasiões. Em 13 de janeiro de 1777, conjuntamente com outros companheiros de luta - maçons ou não - endereçou uma petição ao legislativo de Massachussets protestando contra a existência da escravidão na Colônia. Documentos demonstram que, novamente, em 27 de fevereiro de 1788, redigiu outra petição protestando contra o seqüestro e subsequente venda como escravos de numerosos negros que foram levados de Boston para um navio em direção às Índias Ocidentais. Estes negros retornaram a Boston depois de detidos pelo governador do Maine que concordou com o pedido de auxílio do governador de Massachusets.
Deixou vários documentos escritos, inclusive um livro de cartas, grande manancial para os historiadores. Prince faleceu em 4 de dezembro de 1807 na glória de ter sido o primeiro americano negro a receber os graus da maçonaria nos EEUU. Sua morte foi noticiada em inúmeros jornais de Boston. Foi enterrado em Copps Hill ao lado de uma de suas esposas.
A maçonaria Prince Hall honra a memória de seu fundador em uma cerimônia pública - Prince Hall Americanism Day - que acontece em setembro numa igreja em Boston. Como os São Joães, Prince Hall é considerado um dos santos fundadores da maçonaria negra nos EEUU. A cada dez anos a Conferência dos Grãos Mestres Prince Hall realiza uma peregrinação à Boston no seu memorial em Copps Hill.
III - A OBEDIÊNCIA
Mackey, dentro da mais pura Doutrina Americana da Exclusiva Jurisdição Territorial, estatui que por esta razão que uma Grande Loja tem competência para outorgar uma Autorização (Warrant) de Constituição e estabelecer uma Loja num território não-ocupado, por petição, claro, de um requisitado número de maçons. E este direito de outorgar Autorização habitualmente conferido a cada Grande Loja no mundo, e podendo ser exercido por quantas queiram fazê-lo, desde que nenhuma Grande Loja esteja organizada no território. Assim, podem existir dez ou doze Lojas funcionando ao mesmo tempo no mesmo território, e cada uma delas derivando sua existência legal de uma diferente Grande Loja.[10][10]
A maçonaria Prince Hall queixa-se de que a maçonaria caucasiana, baseada nestes princípios, sempre sabotou e não reconheceu a criação de uma Grande Loja Prince Hall. Para complicar mais o quadro, a Grande Loja de Massachussets (branca) gaba-se de ser a primeira Grande Loja do Hemisfério Ocidental, datando de 1733 quando Henry Prince foi nomeado Grão Mestre Provincial para a Nova Inglaterra por uma autorização de Lorde Montague na Inglaterra. Essa Grande Loja Provincial foi jurisdicionada pela Grande Loja da Inglaterra até abril de 1769 quando se tornou uma Grande Loja independente. Convém salientar que, com a independência dos EEUU, as diversas Grandes Lojas Provinciais, ligadas à Inglaterra ou à Escócia ou à Irlanda, declararam-se independentes de suas Grandes Lojas Mães.
A tradição da maçonaria Prince Hall afirma que a primeira Grande Loja Africana da América do Norte foi organizada em Boston, Massachussets, em 24 de junho de 1791, tendo Prince Hall como seu primeiro Grão-Mestre. A seguir foram criadas as seguintes Grandes Lojas Prince Hall [11][11]: 2 - Loja Africana nº 459 de Filadélfia (24/06/1797), 3 - Grande Loja Boyer em Nova Iorque (12/03/1845), 4 - Grande Loja Africana de Maryland (1845), 5 - Grande Loja União no Distrito de Colúmbia (27/03/ 1848), 6 - Grande Loja Prince Hall de Nova Jersey (24/06/1848), 7 - GLPH de Ohio (03/05/1849), 8 - GLPH de Delaware (09/06/1849), 9 - GLPH da Califórnia (19/06/ 1855), 10 - GLPH de Indiana (13/09/1856), 11 - GLPH de Rhode Island (07/10/ 1858), 12 - GLPH de Louisiana (05/01/1863), 13 - GLPH de Michigan (25/04/1866), 14 - GLPH de Virginia (29/10/1865), 15 - GLPH de Kentucky (16/08/1866), 16 - GLPH de Missouri (20/12/1866), 17 - GLPH de Illinois (15/02/1867), 18 - GLPH da Carolina do Sul (junho 1867), 19 - GLPH de Kansas (11/09/1867), 20 - GLPH da Carolina do Norte (01/03/1870), 21 - Grande Loja União da Flórida, Belize e América Central (17/06/1870), 22 - GLPH da Georgia (22/08/1870), 23 - GLPH do Tennessee (31/08/1870), 24 GLPH do Alabama, 25 - Grande Loja Stringer do Mississippi (03/ 07/1875), 26 - GLPH do Arkansas (28/03/ 1873), 27 - GLPH de Connecticut (03/11/ 1873), 28 - GLPH da Província de Ontario (1851), 29 - GLPH do Texas (19/08/ 1875), 30 - GLPH do Colorado (17/01/1876), 31 - GLPH de West Virginia (03/10/ 1877), 32 - GLPH de Iowa (09/08/1882), 33 - GLPH de Oklahoma (15/08/1893), 34 - GLPH de Minnesota (16/08/1894), 35 - GLPH de Washington (13/04/1903), 36 - GLPH de Nebraska (02/08/1919), 37 - GLPH do Arizona (30/05/1920), 38 - GLPH do Novo México (21/09/1921), 39 - GLPH do Wisconsin (28/06/1952), 40 - GLPH das Ilhas Bahamas (1951), 41 - GLPH do Oregon (23/04/ 1960), 42 - GLPH do Alaska (setembro de 1969), 43 - GLPH de Nevada (1980), 44 - Grande Loja dos Antigos Maçons da República da Libéria (setembro de 1967).
As últimas pesquisas historiográficas reformulam, em parte, a tradição da maçonaria Prince Hall. Os fatos indicam que, em 1792, a Grande Loja da Inglaterra, numa revisão de numeração de loja inativas, alterou o número da African Lodge que passou de 459 para 370.
Em 1813 a African Lodge foi retirada dos anais da Grande Loja da Inglaterra por falta de comunicação e pagamento do fundo de caridade. De 1813 a 1824 a Loja Africana de Massachussets quase abateu colunas, reunindo-se pouquíssimas vezes. Em 1824 foi remetida à Grande Loja da Inglaterra uma petição pedindo a renovação de sua Carta Constitutiva, fato que ficou sem resposta até os dias de hoje.
Em 1824 a African Lodge nº 459 (370) experimentou uma revivescência de atividades pois as suas atas se tornaram mais minudentes e constantes. Sob a liderança de um mulato, extremamente habilidoso e agressivo, chamado John Telemachus Hilton, que se tornou seu Venerável Mestre em 1827, começou-se a pensar seriamente na criação de uma Grande Loja que cuidasse dos assuntos da comunidade maçônica negra nos EEUU. Assiste-se, a partir desta data, a um novo pomo de discórdia com a maçonaria branca, sendo que esta alega ser tal criação totalmente irregular para os padrões maçônicos tradicionais, como visto acima.
Assim, em 1827, a African Lodge nº 459 de Boston assumiu o nome de African Grand Lodge nº 459, passando a adotar o título de Prince Hall Grand Lodge somente a partir de 1848. A maçonaria caucasiana teria, a partir de então, novo ponto de discussão: não só a caducidade do warrant da Inglaterra como também a auto-proclamação irregular de uma Grande Loja, ainda mais num território (Massachusetts) onde já existia uma Grande Loja (caucasiana evidentemente).
O jornal Boston Daily Advertiser de 26 de junho de 1827 (vide Anexo) publicou, na página 3, uma declaração de independência maçônica, datada de 16 de junho de 1827, assinada pelo Venerável-Mestre, Vigilantes e Secretário. Nesta proclamação pública menciona a carta autorizativa de 29 de setembro de 1784, as dificuldades de comunicação com a Grande Loja de Londres e, o que é mais importante, a declaração de independência de ser tributária ou governada por qualquer Grande Loja dali em diante.
A possessão da Carta de Reconhecimento da Grande Loja da Inglaterra sempre deu a Prince Hall e seus associados uma certa aura de prestígio e de status social entre os negros dos EEUU. Note-se que em 22 de março de 1797 um tal Peter Mantore de Philadelfia endereçou uma carta à African Lodge de Boston requerendo uma dispensação, um warrant para uma Loja Africana. Nos primórdios do século XIX, uma Loja de Philadelfia, a Loja Harmonia de Providence em Rhode Island e a Loja Boyer em Nova Iorque obtiveram da Loja Africana nº 459 de Boston uma autorização para funcionar.
Para encerrar esta parte obediencial, convém salientar outra peculiaridade da maçonaria Prince Hall nos EEUU: a tentativa de organizar uma Grande Loja Nacional, ou seja uma autoridade central que organizasse a maçonaria negra nos diversos Estados da América do Norte.
Após a Revolução Americana, a maçonaria caucasiana tentou, por diversas vezes, organizar uma Grande Loja Geral, que teria até mesmo George Washington como Grão-Mestre Geral para todo os EEUU. Mackey afirma que desde que as Grandes Lojas deste país começaram, nos princípios da guerra revolucionária, a abandonar sua dependência das Grandes Lojas da Inglaterra e da Escócia, - ou seja, tão logo emergiram da posição subordinada de Grandes Lojas provinciais e foram compelidas a assumir um caráter soberano e independente, - tentativas, tem sido feitas de tempos em tempos, pelos membros da Arte Real em destruir esta soberania das Grandes Lojas dos Estados Federados, e instituir, em seu lugar, um poder superintendente, para ser constituído seja como um Grão-Mestre da América do Norte seja como Grande Loja Geral dos EEUU. Conduzidos, talvez, pela analogia das colônias unidas sob uma cabeça federal ou, no começo da luta revolucionária, controlada por longos hábitos de dependência das Grandes Lojas-Mães da Europa, a disputa mal tinha começado, quando teve lugar a ruptura de relações políticas entre Inglaterra e América, no momento em que se tentava instituir o cargo de Grão-Mestre dos Estados Unidos, cujo objeto era (do qual dificilmente se pode duvidar) investir George Washington com a reconhecida dignidade.[12][12]
Desde 1844 discutia-se nos círculos de Nova Iorque e Boston a necessidade de se criar uma Grande Loja Nacional Prince Hall.
A idéia e o motor da montagem da Grande Loja Nacional ou Compacta da maçonaria Prince Hall foi, mais uma vez, aquele empreendedor visto acima: John Telemachus Hilton. A elite da maçonaria negra, liderada por Hilton, tinha consciência de que a maçonaria Prince Hall era a única organização interestadual fora da igreja numa época de conflitos raciais intermitentes. Estes feudos estaduais, contudo, não se comunicavam nem mantinham um mínimo de vínculo associativo. Assim, no dia de São João Evangelista de 1847 na cidade de Boston, no Estado de Massachussets, os delegados de Boston, Nova Iorque, Providence e Pensilvania criaram a Loja Nacional dos Antigos Maçons de York Livre e Aceitos (Negros) dos Estados Unidos da América, tendo John T. Hilton como seu primeiro Grão-Mestre.
Esta Grande Loja Nacional, desde os primórdios, tornou-se um foco de dissensões e conflitos entre a maçonaria Prince Hall. Por diversas vezes reconheceu outra Grande Loja Prince Hall no mesmo Estado onde já existia uma.
As discussões tomaram um rumo mais quente com a dissensão da Grande Loja de Ohio em 1868. Como as Grandes Lojas Prince Hall dos Estados foram se retirando gradativamente da Grande Loja Nacional, na segunda Convenção Nacional de 4-6 de setembro de 1877 em Chicago, Illinois, resolveram dissolver a Grande Loja Nacional, restaurando, assim, em parte, a soberania das Grandes Lojas Estaduais.
Não se pense, contudo, que a Grande Loja Nacional teria fenecido a partir daí, pois Sherman relata que os procedimentos normativos impressos da Grande Loja Nacional estão disponíveis para os anos de 1856, 1862, 1865, 1874, 1898, 1909, 1910, 1915 e 1921. Foram examinados pelo Ir.´. Edward R. Cusick, com quem tenho correspondido por um bom período de anos. Ele salientou o fato de que tem havido uma Grande Loja Nacional de maçons de cor operando de 1847 a 1957 e eu sei por correspondência pessoal que ela ainda esta funcionando.[13][13] Apresenta ainda no Apêndice D deste seu artigo a relação dos grão-mestres Nacionais de 1847 a 1978.
IV - PÉROLAS MAÇÔNICAS
Neste item busca-se apresentar os procedimentos normativos, do passado e do presente, sobre os negros, na sua maioria, como também alguns sobre índios e amarelos, existentes na maçonaria, coletados pelos pesquisadores Prince Hall. Tais procedimentos servem como indicadores preciosos do grau de conflito racial que age como uma cunha na sociedade norte-americana. Tal fratura, apesar de ter causado uma cruenta guerra civil, ainda mantém um potencial explosivo nos dias de hoje. A tolerância maçônica inter-racial ainda não foi medianamente absorvida pelos maçons dos EEUU. Possam estes procedimentos, chamados ironicamente de pérolas maçônicas, servir de advertência aos maçons de outras plagas sobre os perigos do conflito racial e tomada de consciência sobre o abismo que separa os negros dos brancos na América do Norte. A tolerância maçônica, nos EEUU, se mostra, ainda incapaz de servir como amortecedor entre as duas tribos.
As principais pérolas coletadas são as seguintes:
1) Da Grande Loja de Iowa, Procedimentos Normativos de 1852:
Exclusão de pessoas da raça negra está de acordo com a lei maçônica e as Antigas Obrigações e Regulamentos.
2) Grande Loja de Louisiana, decisão do Grão-Mestre, 1924:
Uma mistura de sangue branco e negro torna um homem inelegível para os graus da maçonaria.
3) Grande Loja da Carolina do Norte, Constituição, edição de 1915, seção 110, p. 50:
Um candidato tem que ser um homem branco nascido livre.
4) Grande Loja do Mississippi, Procedimentos Normativos para 1899, p. 43, e Constituição da Grande Loja, edição de 1914, estatui que:
Um Maçom que discute Maçonaria com um Negro deve ser expelido da sua Loja.
5) Grande Loja de Ohio, Procedimentos Normativos para 1857:
Admissão de pessoas de cor seria inconveniente e tende a estragar a harmonia da fraternidade.
6) Grande Loja de Idaho, Procedimentos Normativos para 1916, p. 16, decisão de Francis Jenkins, aprovada pelo Comitê de Jurisprudência Maçônica:
Estatui que um candidato deve ser um homem branco.
7) Grande Loja da Carolina do Sul, o Ahiman Rezon, compilado por Albert G. Mackey, Grande Secretário, afirma:
...que o candidato deve ser de pais livres brancos.
8) Grande Loja de Nova Iorque, (a) Procedimentos Normativos para 1851:
I. Não é adequado iniciar nas nossas Lojas, pessoas da raça Negra; e sua exclusão está de acordo com a lei Maçônica e as Antigas Obrigações e regulamentos, por causa de sua condição social deprimente; a falta geral de inteligência, que os impossibilita, como um corpo, a trabalhar ou adornar a maçonaria; a impropriedade em fazê-los nossos iguais em algum lugar, quando pela sua condição social, e as circunstâncias pela quais cada um quase se liga a eles, não acontecendo o mesmo com outros, por não terem de um maneira geral NASCIDO LIVRES...
(b) Procedimentos Normativos para 1890:
Iniciar Negros em Loja pode quebrar a Fraternidade através do país.
9) Grande Loja de Kentucky
(a) Procedimentos Normativos para 1914, p. 39:
Um homem possuindo 1/8 a 1/16 graus de sangue Negro não pode ser Maçom.
(b) Constituição, edição de 1919, p. 28:
Um candidato tem de ser um homem branco nascido livre.
(c) Procedimentos Normativos para 1947, p. 139, o Secretário da Loja nº 228 perguntou: Pode um Católico juntar-se ao Maçons?. A decisão de Albert C. Hanson, Grão-Mestre, em Opinião nº 45, responde: Seção 105 do Livro das Constituições determina que um candidato para a iniciação deve ser um homem branco nascido livre, de 21 anos ou mais e de boa folha corrida.
10) Grande Loja do Texas, Constituições e Leis, 1948, Artigo XV, p. 34:
Esta Grande Loja não reconhece como legal ou Maçônico qualquer organização de Negros trabalhando sob qualquer Carta de Reconhecimento nos EEUU, sem acatar o organismo que outorgou tal Carta, considerando todas as Lojas de Negros como clandestinas, ilegais e não-Maçônicas, e além do mais, julgam como altamente censurável o procedimento de qualquer Grande Loja nos EEUU que reconheça tais organismos Negros como Lojas Maçônicas.
11) Grande Loja de Delaware, Procedimentos Normativos para 1867:
Iniciação ou visitação ...de qualquer Negro, mulato ou pessoa de cor nos Estados Unidos é proibido.
12) Grande Loja de Illinois
(a) Procedimentos Normativos para 1851:
Uma resolução foi adotada proibindo qualquer iniciação ou visitação de um Negro em qualquer Loja.
(b) Procedimentos Normativos para 1852:
...que esta Grande Loja se opõe totalmente à admissão de Negros ou mulatos nas Loja sob sua jurisdição.
(c)Procedimentos Normativos para 1899:
Por esta razão ter Lojas exclusivamente de Negros, poderia ser perigoso para a boa fama de nossa Ordem. E, associá-los em Lojas com irmãos brancos, seria impossível.
13) Grande Loja do Mississippi
(a) Procedimentos Normativos para 1909:
A um candidato foi negado aumento de salário em sua Loja porque ele tinha sido instruído em seu grau anterior por um Negro.
(b) Procedimentos Normativos para 1914:
Porque ele não sabia que era errado, e assim explicou para a Loja, que tinha visitado uma Loja de Negros por ignorância, um membro da Loja nº 34 foi inocentado de qualquer erro.
Por causa deste perdão, o Grão-Mestre apreendeu a Carta da Loja; determinando que o membro deveria ser punido.
14) Grande Loja de Illinois
(a) Procedimentos Normativos para 1846:
O Venerável Mestre de uma loja foi punido por ter conferido graus a um senhor cuja mãe tinha sido uma índia Cherokee e seu pai um mulato.
(b) Procedimentos Normativos para 1852:
A Grande Loja de Illinois reprovou um de seus corpos subordinados por ter admitido um índio meio-sangue americano como visitante, e passou uma resolução proibindo, sob severa penalidade, a repetição de tal ofensa.
(c) Procedimentos Normativos para 1912:
Um Past Master de uma loja, conjuntamente com um ex-Primeiro Vigilante e outro membro assistiram, como carregadores do caixão, ao funeral de um Maçom Negro. O Past Master foi expulso de sua loja e os outros dois, suspensos por um ano.
15) Grande Loja de Nova Iorque, Procedimentos Normativos para 1851:
Uma resolução foi adotada declarando que homens da raça Índia na América eram material impróprio para a Maçonaria.
16) Grande Loja de Indiana, Procedimentos Normativos para 1945:
O Grão-Mestre da Grande Loja recusou-se a permitir a iniciação de um senhor chinês sob o pretexto de que ele não era um cidadão dos EEUU.
17) Grande Loja da Província de Quebec
(a) Procedimentos Normativos para 1923:
Charles McBurney, Grão-Mestre, informou à sua Grande Loja que recusou permissão para um grupo de Negros que desejavam estabelecer uma loja na cidade de Montreal.
(b) Procedimentos Normativos para 1927:
William J. Ewing, Grão-Mestre, recusou permissão para um grupo de Negros para erigir uma loja em Montreal.
18) Grande Loja do Texas
Constituição, edição de 1876: Artigo XXXVI, declarou que todas as lojas de Negros eram clandestinas e ilegais.
19) Grande Loja do Mississippi
(a) Procedimentos Normativos para 9 de fevereiro de 1899:
Visto que a Grande Loja de Washington tem declarado que se Negros estabelecerem lojas e subseqüentemente uma Grande Loja neste Estado, aqueles não considerarão tal fato como sendo uma invasão deste território Maçônico, a Grande Loja do Mississippi cortou relações fraternais com a Grande Loja de Washington.
(b) Procedimentos Normativos para 1873:
Embora o Grão-Mestre, W.H. Hardy, advertisse sua Grande Loja que em Nova Jersey permitiu a formação de uma loja em Newark, N.J., cujos membros eram brancos e negros, o alto corpo do Mississippi não tomou nenhuma ação neste ano, mas o fez em 1909.
(c) Procedimentos Normativos para 1909:
Durante o mês de agosto de 1908, Edwin J. Martin, Grão-Mestre, descobriu que a Loja Alpha nº 116, trabalhando sob a jurisdição da caucasiana Grande Loja de Nova Jersey na cidade de Newark, funcionava com brancos e negros e visto que o Grão-Mestre de Nova Jersey não renegou a Loja, o Grão-Mestre do Mississippi cortou relações com o alto corpo de Nova Jersey.
20) Grande Loja de Oklahoma
(a) Procedimentos Normativos para 9 de fevereiro de 1910:
Simpatizando com a ação da Grande Loja do Mississippi, como descrito acima, esta Grande Loja cortou relações com a Grande Loja de Nova Jersey por causa da composição racial da Loja Alpha nº 116, sob a jurisdição da última.
Mais tarde, Oklahoma reatou relações, baseado no entendimento de que todos os maçons de Nova Jersey seriam bem vindos às lojas de Oklahoma, exceto os membros da Loja Alpha nº 116.
(b) Procedimentos Normativos para 14 de fevereiro de 1940:
A Grande Loja de Oklahoma, novamente, descobriu a existência da Loja Alpha nº 116, em Newark, e mais uma vez, cortou relações fraternas com a Grande Loja de Nova Jersey mas que também foram reatadas a partir de 11 de fevereiro de 1942.
21) Loja Arizona em Phoenix, Arizona:
Em 5 de janeiro de 1952, a Associated Press noticiou que o corpo de um soldado negro, morto na Coréia, tinha sido mantido no necrotério da cidade de Phoenix por cinco semanas, visto que o cemitério, propriedade da e operado pela Loja Arizona, não teria permitido que o corpo fosse enterrado a menos que três cartas de requerimento de sepultamento, registradas em cartório, fossem submetidas à consideração se poderia ser enterrado ao lado dos veteranos brancos no cemitério desta loja Maçônica.
E para encerrar, com chave de ouro, uma pérola do general confederado da guerra civil americana e Sob\Gr\Com\do Supr\Cons\Jur\Sul dos EEUU - Albert Pike -, considerado o Platão moderno da maçonaria universal, autor do afamado Morals and Dogma, uma das bíblias do Rito Escocês Antigo e Aceito.
Seu mais famoso biógrafo e apologista - Duncan - relata que, em 1858, Albert Pike e 11 de seus colaboradores emitiram uma circular conclamando a expulsão dos Negros libertos e mulatos do Arkansas, citando a preguiça e bestialidade de uma raça degradada, sua imoralidade, imundície e indolência e chamando o negro tão desprezível e depravado como um animal.[14][14]
Walkes afirma que Albert Pike serviu como Chefe de Justiça da Ku Klux Klan quando era Soberano Grande Comendador. Tendo sido, também, Grande Dragão para o Arkansas.[15][15] Este senhor muitas vezes admitiu como sua opinião que a Maçonaria Prince Hall era tão regular como a sua e, em algumas circunstâncias, mais ainda, mas era incapaz de ultrapassar seu preconceito de cor, como expresso na seguinte linguagem: Eu tomei minhas obrigações para com homens brancos, não para com Negros. Quando eu tiver que escolher entre Negros como Irmãos ou abandonar a Maçonaria, eu abandonarei a Maçonaria.[16][16]
Albert Pike não é estranho ao Grande Oriente do Brasil, pois o arguto Kurt Prober relata que no correr do ano de 1887 o Grande Oriente do Brasil mandou cunhar uma Medalha em homenagem ao Sob\Gr\Com\Albert Pike do Supr\Cons\Jur\ Sul dos EEUU, que vai aqui ilustrada, pois é quase desconhecida entre nós, e totalmente desconhecida aos colecionadores estrangeiros.
Nenhum documento foi jamais encontrado alusivo a esta medalha, e nenhuma explicação sobre os motivos que teriam induzido o Gr. M. Sob. Com. do GOB\Vieira da Silva, a mandar cunhar esta peça na Casa da Moeda do Rio de Janeiro, sabendo-se apenas, pelas anotações daquela Repartição, que se cunhou UM EXEMPLAR ÚNICO em OURO, certamente mandado para os EEUU ao Ir\Pike, que ainda no princípio de 1887 estivera seriamente doente, de um ataque de gota, que já não mais lhe permitia viajar, a ponto de estar morando com sua filha no prédio do Supremo Conselho de Washington, no que chamava de THE HOUSE OF THE TEMPLE (A casa do Templo).
Não há dúvida de ter sido uma homenagem merecida, a prestada a Albert Pike pelo GOB e pelo S.C.BRAS., pois fora ele, que em horas difíceis lhes tinha dado pleno apoio, em diploma de 5.7. de 1869 (em meu arquivo, veja Nota 76, pg. 142) declarando publicamente, que se tinha enganado reconhecendo o Supr\Cons\(irregular) do Gr. Or. dos Beneditinos, e indicando para representante do S.C.BRAS. nos EEUU o Ir\ John Quincy Adams Fellows, que foi imediatamente confirmado pelo GOB, e nomeando Pike depois o Ir\Francisco Leão Cohn para seu representante.
O Ir\Albert Pike, nascido na cidade de Boston em 29.12.1809, pode ser considerado, juntamente com George Washington, como um dos maiores maçons da nação americana, de todos os tempos. Era Jornalista, Editor, Advogado além de nas guerras dos Estados do Norte contra o México ocupou o cargo de General.
Foi o único americano, durante os 244 anos de história maçônica daquele país, que mereceu o título de GRÃO MESTRE VITALÍCIO. A sua cultura era quase fenomenal, lendo ele corretamente o Grego, Latim, Sânscrito, Francês e Espanhol, além de falar Alemão, Italiano, Português e diversos dialetos indus. Os seus poemas eram altamente estimados pelo seu contemporâneo Edgar Allan Poe.
Pois foi Albert Pike, que lançou a pedra fundamental para a importância da maçonaria americana, e ao falecer em 2.4.1891, com a idade de 82 anos, recebeu com justiça o cognome de Patriarca da Maçonaria.
E foi este personagem, que em 1.7.1884 escreveu a famosa réplica à bula papal de 20.4.1884 de Leão XIII, conhecida pelo nome de Encíclica HUMANUS GENUS, que condenava a Maçonaria com toda a violência. Esta resposta, revista, foi em 1.8.1884 publicada oficialmente pelo Supr\Cons\e Pike foi tão acertado e feliz em suas contra-provas, mostrando a inoportunidade e a sem razão da aludida bula, que desde então o Vaticano não mais tomou atitude tão frontal contra a maçonaria universal através de suas bulas papais, resumindo-se a combater os maçons pela legislação canônica ou outras declarações esporádicas.
Portanto, fora bem justa a homenagem que o GOB e a SCBRAS estavam prestando a Alberto Pike.[17][17]
Encerrado este florilégio de pérolas maçônicas, já é hora de tirar algumas conclusões.
V - CONCLUSÃO
O fato estarrecedor que se impõe como conclusão preliminar não é tanto a falta de informação do povo maçônico brasileiro sobre a maçonaria nos EEUU em geral (Pike et caterva) e Prince Hall em particular, mas a desinformação, para não dizer informação seletiva, proporcionada por dois dos nossos maiores maçonólogos: Kurt Prober e Nicola Aslan.
Kurt Prober, por só realçar os aspectos positivos de Albert Pike, como visto acima e Nicola Aslan, por copiar ipsis litteris a posição preconceituosa de Mackey[18][18] com pouca visão crítica, proporcionam uma ótica parcial dos complexos problemas maçônicos. A argumentação básica de Mackey é de que a Loja Africana nunca foi reconhecida pela Grande Loja de Massachusetts (caucasiana), a cujo corpo havia recusado sempre outorgar sua lealdade...
O Brasil maçônico passa hoje, em boa parte devido ao trabalho dA Trolha, por uma revivescência de estudos maçônicos. Proliferam, no país, as Lojas de Pesquisas Maçônicas. A moda no momento são os ingleses e a Loja de Pesquisas Quatuor Coronati de Londres, fato que não deixa de ser altamente positivo. Se por um lado, estamos saímos, aos poucos, de nosso provincianismo maçônico, por outro, dentre os que sabem inglês, alguns começam a traduzir acriticamente os textos da Quatuor Coronati e difundi-los em escala industrial para um mercado ávido de informações.
Estamos preparando, no momento, uma monografia que talvez intitulemos de Geopolítica da Maçonaria, buscando mostrar como as grandes potências utilizam também a maçonaria para a sua estratégia de dominação econômica e cultural.
Não é preciso ser nenhum especialista em geopolítica para perceber que a Grande Loja da Inglaterra reconheceu e deu uma carta patente para Prince Hall e seus epígonos dentro de um contexto de guerra revolucionária, ou seja, procurava, de todos os modos, dividir a elite branca nativa dos Estados Unidos que almejava a independência da nação.
Findel, na sua arguta análise, relata que no princípio da guerra, diz o Ir\ Barthelmess, os ingleses trataram e não foi em vão, de ganhar para seu partido aos índios e aos negros. Nas listas dos regimentos, encontram-se muitos nomes que levam a designação de black ou negro. Todo o mundo conhece o dano que os índios fizeram à milícia americana. A perspectiva de obter liberdade atraía, principalmente no Sul, os escravos que buscavam reunir-se em massa sob a bandeira do exército inglês e, ao término da guerra, abandonar o país de sua servidão e estabelecer-se em regiões que haviam permanecido sob o domínio da Inglaterra (Nova Escócia, Nova Brunswick e Canadá).[19][19]
Findel conclui seu capítulo intitulado História Positiva da Franco-maçonaria Americana com estas palavras que não devem agradar à Mackey e à Grande Loja Unida da Inglaterra: estas cartas [de Prince Hall] provam não só a falsidade da afirmação que se tem sustentado de que a Grande Loja da Inglaterra tinha retirado sua patente pouco tempo depois de sua expedição, senão que ademais provam que se existe alguma negligência nas relações das duas lojas, deve atribuir-se a falta unicamente à Loja da Inglaterra.[20][20]
Possa esta pequena monografia despertar o estudo da maçonaria Prince Hall, que, talvez, tenha mais interesse, como processo de aprendizagem, principalmente para os maçons negros brasileiros, não só pelo seu porte - pelos dados de 1989 seriam mais de 4675 lojas com quase 300.000 membros - como também pelo seu processo de luta num país dividido por uma tremenda luta racial. Sem embargo, o estudo e a reflexão sobre Prince Hall, é de importância vital para que os maçonólogos brasileiros - brancos, pretos, mulatos e tutti quanti - aprendam, neste cipoal de fatos históricos, a trama do poder mundial que, na maioria das vezes, utilizam a maçonaria e os maçons ingênuos, em função dos objetivos estratégicos de poder.
A título de curiosidade e da amenização do rancor da maçonaria caucasiana norte-americana, apresenta-se a seguir a relação, obtida na Internet, das Grandes Lojas que já reconhecem, admitem conviver e permitem inter-visitação com as Lojas Prince Hall: California, Colorado, Connecticut, Idaho, Kansas, Massachusetts, Minnesota, Nebraska, North Dakota, Ohio, Vermont, Washington, Wisconsin e Wyoming. No Canadá, as seguintes Grandes Lojas: Manitoba, New Brunswick, Nova Scotia, Prince Edward Island e Quebec. Desnecessário dizer que Prince Hall (Massachusetts) é reconhecida pelas Grandes Lojas da Inglaterra e da Irlanda. Fato pitoresco e grotesco é que a Grande Loja Unida da Inglaterra reconhece as Grandes Lojas da Nova Escócia, do Novo Brunswick e do Quebec e um certo número de Grandes Lojas nos EEUU, mas proibiu os seus membros de visitar as Lojas dessas jurisdições visto que tais jurisdições reconheceram Grandes Lojas Prince Hall em vários estados que não o de Massachussetts!
Recentemente o Supremo Conselho do R.E.A.A. dos EE.UU - Jurisdição Norte concordou em manter um reconhecimento mútuo com o Supremo Conselho do R.E.A.A. Prince Hall.
Para se ter uma amostra da longa trajetória do reconhecimento, supondo-se que todas as Grandes Lojas caucasianas desejassem reconhecer todas as Grandes Lojas Prince Hall e vice-versa, haveria a necessidade de 2200 reconhecimentos mútuos, haja vista existirem 51 Grandes Lojas caucasianas regulares nos EEUU enquanto que as Grandes Lojas Prince Hall regulares somam 43. Quantos anos seriam necessários para que se processasse tal reconhecimento entre as 94 Grandes Lojas? Quem viver, verá.
7 - B I B L I O G R A F I A
- ALBUQUERQUE, A. Tenório D', A Maçonaria e a Libertação dos Escravos, Ed. Aurora, Rio de Janeiro, 1970.
- ANDERSON, James, Reproduction of The Constitution of the Free-Masons or Anderson Constitutions of 1723 in English and French, ed. by Maurice Paillard, London, 1952.
- ARS QUATUOR CORONATORUM, Anais da Quatuor Coronati Lodge nº 2076, Londres, diversos números de 1960 a 1993.
- ASLAN, Nicola, Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia, 4 vol., Editora Artenova, Rio de Janeiro, 1974.
- CASTELLANI, José, Dicionário Etimológico Maçônico - ABC (1990), DEFG (1990), HIJL (1991), MNOP (1992), PQRS (1993), TUVXZ (1994), Ed. Maçônica "A Trolha", Londrina, PR.
- DUNCAN, Robert Lipscomb, Reluctant General: The Life and Times of Albert Pike, E.P. Dutton and Co., New York, 1961.
- FRAU ABRINES, Lorenzo, Diccionario Enciclopédico de la Masonería, 4 vol., Editorial del Valle de Mexico, México, 1976.
- GOULD, Robert Freke., The History of Freemasonry - Its Antiquities, Symbols, Constitutions, Customs, Etc., 3 vols., T.C. & E.C. Jack, Grange Publishing Works, Edinburgh, 1887.
- GRIMSHAW, Wm.H., Official History of Freemasonry Among the Colored People in North America, reprint, Kessinger Publishing Company, Kila, Montana,USA, s/d.
- HALL, Manly P., An Encyclopedic Outline of Masonic, Hermetic, Qabbalistic and Rosicrucian Symbolical Philosophy, Golden Anniversary Edition, The Philosophical Research Society, Los Angeles, CA, 1979.
- HAMIL, John, The History of English Freemasonry, Lewis Masonic Book, England, 1994.
- INTERNET - freemasonry-list@sclinux.bml.gov e diversos maçonólogos internautas através do mundo.
- MACKEY, Albert Gallatin, Enciclopedia de la Francmasonería, 4 vol., Editorial Grijalbo, Mexico, 1981.
- MACKEY, Albert G., Jurisprudence of Freemasonry, Macoy Publishing & Masonic Supply Co., Inc., Richmond, Virginia, 1980.
- MELLOR, Alec, Dicionário da Franco-Maçonaria e dos Franco-Maçons, Martins Fontes, São Paulo, 1989.
- NEWINGTON, George Draffen of, Prince Hall in Ars Quatuor Coronatorum, vol. 89, Anais da Quatuor Coronati Lodge Nº 2076, London, 1977, p. 70.
- PIKE, Albert, Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry, Charleston, 1871.
- PRESTON, William, Illustrations of Masonry, The Aquarian Press, London, 1986.
- PROBER, Kurt, História do Supremo Conselho do Grau 33\do Brasil, vol. I/1832 a 1927, Livraria Kosmos Editora, Rio de Janeiro, 1981.
- ROBERTS, Allen E., Freemasonry in American History, Macoy Publishing & Masonic Supply Co., Inc., Richmond, Virginia, 1985.
- ROBERTS, Allen E., House Undivided - The Story of Freemasonry and the Civil War, Macoy Publishing & Masonic Supply Co., Inc., Richmond, Virginia, 1990.
- SHERMAN, John M., review of WESLEY, Charles H., Prince Hall, Life and Legacy in Ars Quatuor Coronatorum, vol. 90, Anais da Quatuor Coronati Lodge Nº 2076, London, 1977, p. 306.
- SHERMAN, John M., The Negro Nacional or Compact Grand Lodge, in Ars Quatuor Coronatorum, vol. 92, Anais da Quatuor Coronati Lodge Nº 2076, London, 1979, p. 148.
- THUAL, François, Géopolitique de la Franc-Maçonnerie, Dunot Éditeur, Paris, 1994.
- WALKES, JR., Joseph A., A Prince Hall Masonic Quiz Book, Macoy Publishing & Masonic Supply Co., Inc., Richmond, Virginia, 1989.
| [1][1] WALKES, JR., Joseph A., A Prince Hall Masonic Quiz Book, Macoy Publishing & Masonic Supply Inc., Richmond, Virginia, 1989. |
| [2][2] GRIMSHAW, William Henry, Official History of Freemasonry among the Colored People of North America, Books for Libraries Press, New York, 1971. A primeira edição apareceu em 1903. |
| [3][3] SHERMAN, John M., The Negro Nacional or Compact Grand Lodge, in Ars Quatuor Coronatorum, vol. 92, Anais da Quatuor Coronati Lodge Nº 2076, London, 1979, p. 148. |
| [4][4] APTHEKER, Herbert (ed), The Correspondence of W.E.B. DuBois, vol. 1, University of Massachusets Press, 1973, p. 402 in WALKES, JR., Joseph A., A Prince Hall Masonic Quiz Book, Macoy Publishing & Masonic Supply Inc., Richmond, Virginia, 1989, p.17. |
| [5][5] WESLEY, Charles H., Prince Hall: Life and Legacy, United Supreme Council, A.A.S.R., S.J., P.H.A. & The Afro-American Historical & Cultural Museum, Washington, p. 51 in WALKES, JR., Joseph A., A Prince Hall Masonic Quiz Book, Macoy Publishing & Masonic Supply Inc., Richmond, Virginia, 1989, p. 18. |
| [6][6]KING, Nelson, Short History of Prince Hall Masonry in PHA Warning Large File, comunicado email |
| [7][7] GOULD, Robert Freke., The History of Freemasonry - Its Antiquities, Symbols, Constitutions, Customs, Etc., III vol., T.C. & E.C. Jack, Grange Publishing Works, Edinburgh, 1887, p.454. |
| [8][8]DAVIS, Harry A. , A History of Freemasonry Among Negroes in America, United Supreme Council, A. A.S.R., S.J., P.H.A, 1946, p. 29 in WALKES, JR., Joseph A., opus cit., p.18. |
| [10][10] MACKEY, Albert G., Jurisprudence of Freemasonry, Macoy Publishing & Masonic Supply Co., Inc., Richmond, Virginia, 1980, p. 296. |
| [11][11] A partir do final do século XIX os antigos nomes das Grandes Lojas passam a se chamar Grande Loja Prince Hall de (nome do Estado), com toda a certeza a idéia foi estimulada pelo livro de Grimshaw que exerceu tremenda influência no mundo maçônico negro, apesar de conter muitas ficções. |
| [12][12] MACKEY, Albert Gallatin, Enciclopedia de la Francmasonería, vol. II, Editorial Grijalbo, Mexico, 1981, p.649. Como a tradução espanhola estava confusa optei por traduzir direto do inglês no livro de WALKES, opus cit. p. 74. |
| [13][13] SHERMAN, John M., The Negro Nacional or Compact Grand Lodge, in Ars Quatuor Coronatorum, vol. 92, Anais da Quatuor Coronati Lodge Nº 2076, London, 1979, p. 154. |
| [14][14] DUNCAN, Robert Lipscomb, Reluctant General: The Life and Times of Albert Pike, E.P. Dutton and Co., New York, 1961, p. 162. |
| [15][15] WALKES, Joseph A., The Ku Klux Klan and Regular Freemasonry, FPS, pp. 3-8 in Phylaxis, vol. VIII, nº 1, 1st Quarter 1982. |
| [16][16] WALKES, JR., Joseph A., A Prince Hall Masonic Quiz Book, Macoy Publishing & Masonic Supply Inc., Richmond, Virginia, 1989, p. 84. |
| [17][17] PROBER, Kurt, História do Supremo Conselho do Grau 33\ do Brasil, vol. I/1832 a 1927, Livraria Kosmos Editora, Rio de Janeiro, 1981, p. 184. |
| [18][18] Comparar o verbete NEGROS NA MAÇONARIA de Nicolas Aslan no Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia, vol.III, Ed. Artenova, Rio de Janeiro, 1974, p. 730 com o verbete NEGRAS LOGIAS, LAS de MACKEY no Enciclopedia de la Francmasonería, vol.III, Editorial Grijalbo, Mexico, 1981, p.1046. |
| [19][19] FINDEL, J.H., Historia General de la Francmasonería in FRAU ABRINES, Lorenzo, Diccionario Enciclopédico de la Masonería, vol.IV, Editorial del Valle de Mexico, México, 1976, p.151. |
| |
Assinar:
Postagens (Atom)